Aberto, porém injusto – O papel da justiça social na publicação em acesso aberto [Publicado originalmente no LSE Impact Blog em outubro/2020]

Por Simon Batterbury1

Quais são suas principais preocupações sobre como financiadores e universidades buscam atualmente o Acesso Aberto (AA)?

Minhas impressões sobre isso refletem um grupo de publishers acadêmicos e editores que recentemente foram coautores de um Manifesto de Acesso Aberto pela Liberdade, Integridade e Criatividade nas Humanidades e nas Ciências Sociais Interpretativas2, convocado por Andrea Pia, da London School of Economics and Political Science (LSE). O Manifesto2 pretende “repolitizar o Acesso Aberto para desafiar as práticas vorazes existentes na publicação científica.” Estamos preocupados que a publicação de periódicos seja cada vez mais dominada por grandes publishers comerciais, ameaçando os princípios de “liberdade acadêmica, integridade e criatividade” por causa de seus custos e do domínio crescente nas ciências sociais e humanas. Os periódicos AA publicados pelos próprios estudiosos abordam bem estes três princípios e deveriam ter maior reconhecimento e apoio. Sinalizamos preocupações sobre “trabalho invisível e não remunerado” em publicações lideradas por acadêmicos e fazemos recomendações para gestores de universidades, acadêmicos e editores.

A primeira fase do movimento de Acesso Aberto (AA) promoveu a democratização do conhecimento acadêmico, disponibilizando trabalhos para que qualquer pessoa pudesse lê-los (geralmente pela web, e a partir do início dos anos 1990). A abertura de pesquisas relevantes para a crise da COVID-19 ilustra como isso é importante, e a publicação em AA é o novo modelo de maneira geral. Ele está substituindo conteúdo com acesso pago e acordos de assinatura de periódicos, que custam caro às bibliotecas universitárias. A publicação em AA de trabalhos acadêmicos financiados está agora sendo exigida na Europa e globalmente por meio do Plano S, e assim, os cinco grandes publishers e grande parte do setor estão mudando rapidamente de modelos de assinatura para “pagar para publicar” (ou suas variantes híbridas) para reter e aumentar sua participação no mercado. Os grandes publishers estão fortalecendo seu poder de mercado de oligopólio ao comprar publishers menores e periódicos de sociedade científicas. As taxas de processamento de artigos (article processing charges, APCs) que eles cobram são enormes, sendo US$3.000 (£2.300) valores comuns nas disciplinas STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics – Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática) e ciências sociais, e às vezes muito mais altas – [especialmente] durante as retrações induzidas pela Covid nas receitas universitárias e com pagamentos decentes de empregos acadêmicos se tornando mais escassos a cada dia. Para mim, isso é injusto e pode ameaçar a “liberdade acadêmica de publicar” se os pesquisadores não tiverem dinheiro para APCs por meio de seus acordos de publicação nacionais ou institucionais.

A segunda fase do movimento AA é, portanto, abordar a igualdade na publicação – considerar a ética e as condições sob as quais o material acadêmico é publicado. Não temos dados, mas sabemos que o custo de publicar um artigo está (ou pode estar) bem abaixo das taxas comerciais (centenas de dólares em nosso próprio periódico, não milhares). Com alguns lucros corporativos chegando a mais de 30% ao ano, autores e bibliotecas universitárias são vítimas de fornecedores capitalistas. Como diz o Manifesto2, precisamos recompensar e prover orçamentos para mais publicações em veículos socialmente justos, que oferecem alternativas mais justas e menos onerosas.

As agências de fomento e universidades deveriam injetar algum capital aqui – para apoiar a edição e design de artigos, armazenamento de arquivos e conformidade de dados e proficiência técnica. Eles devem apoiar acadêmicos e funcionários de bibliotecas a trabalhar neste setor de publicação alternativa de acesso aberto cooperativo e cordial, como publishers, editores e pareceristas. Sabemos que a América Latina já trabalha dessa forma com seus principais periódicos publicados on-line por universidades usando software livre, com algum apoio de fundos públicos para reduzir ou eliminar APCs.

Você acha que os argumentos éticos em torno do Acesso Aberto, particularmente em torno de equidade e inclusão, repercutem em um número suficiente de acadêmicos no Norte Global?

Não o suficiente, com certeza. Argumentos, preocupações e princípios de justiça social são levantados em grande parte do conteúdo publicado nas ciências sociais e humanas (em particular). No entanto, os resultados publicados são mais comumente encontrados nos jornais comerciais dominantes, sejam aqueles com acesso pago ou AA com altos APCs.

Os acadêmicos não estão conectando os pontos aqui – enquanto precisam impulsionar seus perfis de publicação, eles são capazes de ignorar os sucessos financeiros e as desigualdades dos publishers com fins lucrativos (por exemplo, o CEO da maior, RELX ganhou £ 1,28 milhão com incentivos e benefícios substanciais em 2020, conforme seu informe anual, pp. 110). Muitos acadêmicos seniores que influenciam a progressão na carreira e as contratações ignoram estas questões, priorizando a publicação de artigos em veículos de prestígio, quase todos eles agora residindo em 5 grandes publishers, em detrimento da ética de publicação para eles próprios e acadêmicos juniores. Estes últimos respondem buscando este prestígio, como eu já fiz, porque, por sua vez, as publicações de alto nível são essenciais para recompensar os empregos nas melhores universidades, que dispõem de melhores recursos.

Para mim, a publicação [que leva em consideração a] justiça social ajuda a quebrar este ciclo e aborda os estágios um e dois acima. Isso significa evitar as empresas mais lucrativas sempre que possível e buscar e apoiar alternativas de “comércio justo”, como muitos de nós fazemos para outras commodities. Para resumir, publicar artigos preocupados com questões de justiça social em periódicos injustos parece errado, não é?

Considerando o volume atual de publicações acadêmicas, é realista pensar que podemos viver sem publishers comerciais que operam em escalas muito maiores?

Várias disciplinas STEM e médicas publicam um grande número de artigos e fazem esta afirmação. No entanto, existem alternativas de acesso aberto gratuitas vinculadas a departamentos e universidades, como Sir Tim Gowers, um professor de Cambridge, há muito defende para a matemática. Nas ciências sociais e humanas, publicamos menos volume e há um vasto potencial para que mais acadêmicos e funcionários de bibliotecas se envolvam na publicação de periódicos, não apenas para ajudar seus colegas, mas também para “retomar” a publicação. Minha própria lista identifica e rastreia centenas de periódicos de ciências sociais respeitados em inglês, muitos das quais poderiam receber mais submissões e contribuições de acadêmicos, se eles fossem recompensados para fazê-lo e tivessem tempo.

Sua universidade recentemente se inscreveu na DORA, que mudanças você gostaria de ver advindas deste compromisso?

DORA é um acordo que aborda muitas das minhas preocupações acima. Obriga os signatários institucionais a abandonar o Fator de Impacto (FI) de um periódico ao avaliar o valor de um artigo ou o desempenho de seu (s) autor (es). Os autores podem escrever para veículos apropriados e de boa reputação, não apenas para os de alto nível, e esperar que seu trabalho seja avaliado de forma justa. Claro, eles ocasionalmente procuram periódicos comerciais, especialmente para trabalhos de vários autores. A implicação da DORA é que a contratação e a promoção devem considerar a qualidade da pesquisa publicada, não o local de publicação. A avaliação REF (Research Excellence Framework) do Reino Unido já reconhece isso, mas não tem como reconhecer a publicação ética, até onde eu sei. Para alguns acadêmicos seniores e financiadores não familiarizados com estes argumentos, devemos sinalizar mais estes compromissos de justiça social.

O Manifesto2 menciona que os acadêmicos se sentem cada vez mais pressionados a “jogar o jogo” – que conselho você daria aos pesquisadores em início de carreira (early career researchers, ECRs) que sentem esta pressão, mas desejam apoiar a publicação em AA liderada por acadêmicos?

Se mais universidades adotarem a declaração DORA, e os acadêmicos sênior a aceitarem, a gama de “canais de prestígio” aumentará e a hierarquia dos periódicos se achatará, esperamos, mudando a estrutura de contratação e promoções para focar na excelência, no convívio e no trabalho em equipe. Se mudarmos o jogo, as APCs e os lucros corporativos podem até cair. Precisamos ser realistas: as considerações de justiça social são secundárias em certos estágios da carreira, mas nunca devem ser esquecidas e, às vezes, precisam ser afirmadas, com uma menção direta em um CV ou em uma entrevista. Você deve ser capaz de publicar com justiça ou dedicar tempo à edição e revisão de publicações acadêmicas alternativas, sem medo de perder o emprego ou nunca ser contratado. Caso contrário, a liberdade acadêmica é violada.

Muitos de nós, jovens e velhos, estamos tentando “mudar o próprio jogo” e parar, nas palavras de Jennie Halperin, de “tratar a pesquisa pública como um recurso privado a ser comprado e vendido de volta às instituições”.3 Minha lista de periódicos para algumas disciplinas e o Directory of Open Access Journals (DOAJ) incluem muitos periódicos de AA gratuitos ou acadêmicos que têm reputação estabelecida, se os ECRs sentirem que precisam fortalecer seu currículo e perfil.

Notas

1. Em conversa com Dimity Flanagan, gerente de Comunicação Científica da Universidade de Melbourne, Austrália. Extensão de uma postagem original no blog da Universidade de Melbourne.

2. PIA, A.E., et al. Labour of Love: An Open Access Manifesto for Freedom, Integrity, and Creativity in the Humanities and Interpretive Social Sciences [online]. Common Place. 2020 [Viewed 29 October 2020]. DOI: 10.21428/6ffd8432.a7503356. Available from: https://commonplace.knowledgefutures.org/pub/y0xy565k/release/2

3. HALPERIN, J.R. Toward Transformation: Scholarly Communications in Perilous Times [online]. Common Place. 2020 [Viewed 29 October 2020]. DOI: 10.21428/6ffd8432.44a18fce. Available from: https://commonplace.knowledgefutures.org/pub/toward-transformation/release/1

Referências

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Links externos

List of OA journals in geography, political ecology, anthropology, planning, area studies, and various social sciences <https://simonbatterbury.wordpress.com/2015/10/25/list-of-decent-open-access-journals/>

Radical Open Access <http://radicaloa.disruptivemedia.org.uk/>

Read the declaration – DORA <https://sfdora.org/read/>

The Home Page of Simon PK Batterbury <http://www.simonbatterbury.net>

The London School of Economics and Political Science <https://www.lse.ac.uk/anthropology/people/andrea-pia>

 

Sobre Simon Batterbury

Simon Batterbury é Professor Associado em Estudos Ambientais na Universidade de Melbourne, Austrália, e Professor Visitante e ex-Presidente de Ecologia Política na Universidade Lancaster, Reino Unido. Ele é coeditor do Journal of Political Ecology, um dos mais antigos periódicos de acesso aberto platina nas ciências sociais e um defensor de longa data do acesso aberto.

 

Artigo original em inglês

https://blogs.lse.ac.uk/impactofsocialsciences/2020/10/24/publishing-articles-concerned-with-social-justice-issues-in-unjust-journal-outlets-seems-wrong-open-access-qa-with-simon-batterbury/

 

Traduzido do original em inglês por Lilian Nassi-Calò.

Fonte: SciELO
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