‘Amador, Zélia’: a trajetória de uma ativista da academia

O curta-metragem ‘Amador, Zélia’ narra a vida de Zélia Amador de Deus, do primeiro caso de racismo que sofreu até o seu legado na Universidade Federal do Pará. A imagem acima mostra o making of do documentário (Foto: Divulgação)

Manaus (AM) – “Eu tive que me construir e me reconstruir. Em dor, na minha ancestralidade, no amor, em Deus, em Deusas, no zelo e na luta. Sobretudo na luta. Tive que aprender a ser eu. E outras. E a me reconhecer na minha pele. Na minha cor. Precisei ter um nome. O meu nome.” São com frases fortes que a paraense Zélia Amador de Deus, educadora, artista e militante histórica do movimento negro brasileiro, se autodescreve em Amador, Zélia, curta-metragem que narra a sua trajetória. Foi assim que ela aprendeu a lidar com os obstáculos da vida.

Em 22 minutos de duração, o curta-metragem mescla ilustrações, monólogos teatrais, imagens de arquivo que trazem o rosto de ativistas mundiais que, assim como Zélia, estiveram na linha de frente do combate ao racismo, como Martin Luther King e Angela Davis e depoimentos que contam a vida da ativista desde a infância. Foi nos primeiros anos de sua vida que ela, como milhares de crianças, sofreu seu primeiro caso de racismo. Zélia relata que quando tinha 9 anos percebeu que era a única aluna negra da sua sala na escola. A freira, que era professora da turma, decidiu montar uma apresentação de dança e impediu que ela participasse. Ao ser questionada, a professora disse: “Para essas coisas, a gente sempre escolhe as crianças mais bonitinhas e mais arrumadinhas”.  

Mas Zélia não só deu a volta por cima, como hoje é uma referência intelectual para o Brasil. Em 2019, ela recebeu o título de professora emérita na UFPA (Universidade Federal do Pará), uma homenagem dada para docentes que tenham produção intelectual, científica ou artística de grande relevância para o meio universitário e para a sociedade.

Os depoimentos em Amador, Zélia são da própria ativista e de outras mulheres que fizeram e fazem parte da sua vida, como a filósofa Djamila Ribeiro e a atriz Wlad Lima. “Até no nome ela carrega a nossa arte. Ela é amadora, ela ama esse lugar, ela ama o que ela faz”, diz Wlad em um dos trechos do curta. Já os monólogos, interpretados pela atriz e ativista cultural Carol Pabiq, representam uma Zélia mais jovem que fala sobre a sua ida para Belém ainda criança, a sua criação com os avós e as dificuldades de quem vivia na periferia. 

Outra fase da vida de Zélia interpretada por Carol foi a participação da ativista no movimento estudantil durante a ditadura militar. Na década de 1960, ao lado do grupo Faspa (Frente Secundarista Paraense) e proferindo gritos de protesto, Zélia lutou contra a censura e a violência praticada pela polícia política daquela época.

Desenvolvido pela produtora Floresta Urbana, o curta Amador, Zélia tem produção executiva de Aline Paes, direção de fotografia e co-direção de Glauco Melo, além de roteiro escrito pelo jornalista Ismael Machado, que já tem em seu currículo a série Ubuntu: A Partilha Quilombola, exibida no Canal Futura. 

Para além das telas 

Zélia Amador (Foto: Alexandre de Moraes/ Ascom UFPA)

Nascida no município de Soure, localizado na Ilha do Marajó, Zélia Amador de Deus tem uma longa história, onde a educação, a arte e o movimento negro se fundem. Graduada em Licenciatura em Língua Portuguesa e com doutorado em Ciências Sociais, ambas pela UFPA, é fundadora do Grupo de Estudos Afroamazônico da instituição. 

Desde 1978 é professora da UFPA, onde chegou ao cargo de vice-reitora e lutou pela criação de cotas para pessoas negras na universidade. Sendo uma das principais referências no debate das ações afirmativas no Brasil, implantou e coordenou o Programa de Ação Afirmativa do Ministério do Desenvolvimento Agrário, entre 2001 e 2003. 

Zélia também cofundou o Cedenpa (Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará), uma entidade sem fins lucrativos que busca a superação do racismo e das discriminações que afetam a polulação negra e indígena no estado. Além disso, é membro do Cadara, órgão vinculado ao Ministério da Educação que analisa políticas públicas educacionais e estabelece diretrizes para o ensino da cultura negra no país. 

Apaixonada pela literatura e pelo teatro, Zélia Amador encontrou nas artes cênicas a sua grande terapia, uma forma de se desinibir. Fez curso de formação de ator em 1974 e participou do grupo Cena Aberta. “Às vezes fico pensando se o teatro não foi uma vingança minha em relação à freira, que não me deixou participar do espetáculo de macumba, que eu me tornei atriz”, conta ela no curta-metragem. Em seguida, ela complementa: “Depois que eu comecei a fazer teatro, resolvi que tinha que cada vez mais ser eu pra eu poder ser outras e outros personagens”.

Mais tarde tornou-se diretora do Centro de Letras e Artes da UFPA, entre 1989 a 1993. Também foi coordenadora do Núcleo de Arte da universidade e ministrou disciplinas como História da Arte, História e Teoria do Teatro e  Estética.

“A arte e o teatro, sem sombra de dúvida, são importantíssimos para desinibição, para que você se conheça e conheça os seus limites. Para mim, o teatro foi tudo isso. Ele é uma arte coletiva e eu digo que aprendi a ter uma convivência saudável com as pessoas fazendo direção de teatro”, disse Zélia para a agência Amazônia Real

Os bastidores de Amador, Zélia

Making of do documentário sobre Zélia Amador (Foto: Divulgação)

Amador, Zélia foi um dos projetos contemplados pela Secretaria de Estado da Cultura (Secult) em um edital de audiovisual da Lei Aldir Blanc Pará. Produzido em 2020 durante a pandemia da Covid-19, o curta foi desenvolvido em cerca de três meses e a equipe precisou correr para seguir todos os prazos estabelecidos pelo edital e os protocolos de segurança e de combate ao vírus, uma das principais preocupações dos produtores. 

Ismael, que além de roteirista assina a co-direção, conta que conhece Zélia desde a década de 1980 e que ela é uma referência para ele e para a equipe da Floresta Urbana. “Quando decidimos fazer este curta, liguei pra Zélia e ela me disse ‘Claro, só não acho que o personagem dá caldo. Mas tudo bem’, disse brincando. Ela nos deu todo apoio durante as gravações e o processo e o resultado do curta foi maravilhoso”, afirma ele à Amazônia Real

Segundo Ismael, a escolha em mostrar a trajetória de Zélia por meio da multilinguagem partiu da ideia de ter monólogos teatrais no curta, técnica que faz parte da vivência da protagonista no teatro. Já os depoimentos, que em Amador, Zélia são todos dados por mulheres, foram pensados para que a produção fosse o mais plural possível, sem deixar de transmitir um recado importante sobre o empoderamento feminino. Nos bastidores a situação não foi diferente, as ilustrações — adicionadas para suprir a necessidade de fotos da infância de Zélia —  são assinadas por Josiel Paz, um jovem preto, queer e morador da periferia de Belém. “Infelizmente não conseguimos fazer isso 100%, mas procuramos o máximo possível trazer para o curta uma multiplicidade de olhares e pessoas que pudessem trazer outras reflexões”, conta o roteirista.

Assista ao curta Amador, Zélia:

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Fonte: Amazônia Real
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