Artistas amazonenses resistem na internet

Com recursos da Lei Aldir Blanc, produtores culturais conseguem sobreviver fazendo arte.

Na imagem, o espetáculo “O Que Fazer Hoje”, do coletivo Ceta (Foto de Victor Oliver/Ceta)

Manaus (AM) – Sem os palcos e espaços culturais, o teatro em todo o Brasil se esvaziou. Foi a partir dessa realidade que os grupos e as companhias cênicas começaram a busca por uma linguagem teatral adaptada para o meio virtual. Ao procurar a inovação, o Coletivo Experimental de Teatralidades (Ceta), de Manaus, encontrou no passado uma forma manual e caseira de se fazer arte: o teatro lambe-lambe. Originário das praças do Nordeste brasileiro no século 20, esse tipo de espetáculo ganhou uma nova expressão no ambiente digital.

Montadas em caixas cênicas pequenas, as apresentações e o projeto do Ceta “O Lado de Dentro” ganharam projeção e alcançaram um público maior depois de sua aprovação no Programa Cultura Criativa-2020/Lei Aldir Blanc – Prêmio Feliciano Lana. No domingo (11), começou a mostra virtual de Teatro em Miniatura no canal do Youtube do Ceta, com 14 apresentações e oficinas feitas por artistas do Amazonas, Amapá, Rondônia e Pará. Confira a programação que vai até 18 de abril. 

Por iniciativa de parlamentares da oposição ao governo de Jair Bolsonaro, foi criada a Lei Aldir Blanc (LAB) de Emergência Cultural nº 14.017, de 29 de junho de 2020. Para permitir que artistas e trabalhadores de cultura pudessem enfrentar a pandemia do novo coronavírus, a LAB destinou 3 bilhões de reais a estados e municípios, que ficaram responsáveis por gerenciar esses recursos. Em muitos casos, o valor é superior até mesmo aos orçamentos destinados à cultura.

No Amazonas, o repasse de quase 40 milhões de reais permitiu a geração de renda para mais de 30 mil artistas por meio da aprovação de 805 projetos culturais de três editais: “Prêmio Feliciano Lana” (32 milhões de reais), “Prêmio Equipa Cultura” (1 milhão de reais) e “Prêmio Encontro das Artes” (6,3 milhões de reais). Além dos editais, 600 artistas amazonenses receberam auxílio emergencial de 600 reais. 

Esses recursos da LAB têm permitido que os artistas sobrevivam nesta pandemia fazendo arte. O projeto “O Lado de Dentro” surgiu por meio de reuniões e ensaios feitos em chamadas online com os co-fundadores do Ceta. Brotaram quatro peças em formato de vídeo: “Lá Vem o Rio”, “De Dentro Para Fora”, “O Que Fazer Hoje?” e “Lá Vem a Chuva”. 

“Acreditamos que a internet é o meio mais rápido de fazer chegar as informações para as pessoas nesse período de pandemia. Nós, artistas, reencontramos possibilidades de difundir nossas linguagens mesmo com nossos espaços fechados. O teatro caminha junto com o tempo, ele sempre se reinventou. O teatro resiste”, afirma com convicção o cofundador, diretor e produtor do Ceta, Victor Oliver.

“Através do processo de inscrição dos espetáculos e oficinas, conseguimos alcançar público em diferentes lugares do Brasil. Nesse período político e pandêmico há um boicote com a cultura e com a classe artística e precisamos nos apoiar. Com a mostra, não estamos só apoiando, mas incentivando outras pessoas a construírem seus espetáculos e participarem desse projeto disseminando a arte do teatro de lambe-lambe”, conclui Oliver.

Final feliz para quem?

Performance de Inã Figueiredo para o Projeto “Final feliz para quem?”
(Foto de Mikaela Raícham)

Desfechos felizes, realidade versus ilusão, perpetuação do preconceito e solidão. Estas são algumas das indagações feitas na experimentação fotográfica coletiva “Final feliz para quem?”, que questiona a posição da mídia e da sociedade diante da diversidade. Durante a criação desse projeto, também contemplado pela Lei Aldir Blanc, o produtor artístico Inã Figueiredo pensou em como os grupos marginalizados precisavam dialogar sobre como são vistos e excluídos no meio social. 

“O objetivo é fomentar não só o reconhecimento artístico, mas também a auto afirmação enquanto LGBTQ+ preto(a) perante uma perspectiva que nos enxerga como seres que querem chamar atenção. Talvez sim, chamar atenção para nossas existências, nossas identidades, nossas criações, nosso orgulho de ser, existir e resistir”, explica Figueiredo. No Brasil, metade dos alvos de violência contra LGBTQIA+ registrados são contra pretos ou pardos, segundo dados do SUS.

“A exposição é sobre a desumanização desses indivíduos, de corpos que são duplamente alvos, do objeto sexual ao endeusamento, do racismo à homofobia, de corpos vistos como libertinos e sexuais, ausentes de sentimentos e humanidade. São corpos que não se veem representados, cheios de marcas que questionam sua identidade, sua auto estima, com a redução da sua humanidade, da sua história, seus desejos, seu modo de ver e de estar no mundo”, diz Inã Figueiredo.

O projeto está com inscrições abertas até o dia 16 e a exposição ficará disponível virtualmente a partir de 23 de  abril na página da produtora @cafepreto.prod.

A chama viva

Professor de Música, Robert Ruan (Foto: Arquivo pessoal)

“Certamente os projetos culturais estão deixando viva a chama da produção artística e cultural em Manaus e no Amazonas. Além do mais, esses projetos oportunizaram muitas pessoas que nunca haviam submetido nenhum projeto e isso faz elas acreditarem que é possível ter novos projetos aprovados futuramente em outros editais”, ressalta Robert Ruan, que chegou a produzir vídeos ensinando como os artistas poderiam conseguir aprovação nos editais da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas.

Dentro de um estúdio improvisado em casa, com um violão e um computador, o professor Robert Ruan, por sua vez, tem ministrado aulas de música de forma remota. O desafio de ensinar a tocar virtualmente veio com a pandemia e a necessidade de se manter empregado. Como ele, muitos artistas amazonenses têm buscado novas estratégias com o uso das redes sociais para expandir o mundo da arte no Amazonas.

“Desde  o início do ano de 2020, todos os trabalhos praticamente zeraram. No entanto, as propostas de trabalhos virtuais acabaram nos “salvando”. Sem dúvida nenhuma, o maior desafio foi ter que se adaptar à vida virtual, não só tocando mas também ministrando aulas. Nós temos que convencer o nosso público que o virtual é tão válido quanto o presencial, e o que nos resta é se adaptar a esse novo estilo de vida rodeados pela tecnologia”, relata o violonista.

A possibilidade de ensinar de forma online também tem seus desafios. É preciso recurso e conhecimento para lidar com as tecnologias e com o novo “estilo virtual de se viver”, modo como Robert descreve o isolamento social. “Eu mesmo tive que investir não só dinheiro como tempo aprendendo a lidar com programas e equipamentos, uma vez que o meu tempo de trabalho na frente do computador mais que dobrou”. 

A migração do musicista para a área virtual fez com que ele criasse o próprio site, padronizasse as redes sociais e trabalhasse intensamente em seu canal do Youtube para perder a timidez na frente das câmeras. Assim como Robert, outras pessoas também passaram a utilizar a internet como forma de fugir da crise, gerando um aumento de 45% no uso das redes sociais durante a pandemia, conforme pesquisa da plataforma Kantar.

As mães do interior

Produção de Embalagens por
Paula Carolinny/ArquivoPessoal

Trinta mulheres de regiões periféricas do município de Iranduba, interior do Amazonas, terão a oportunidade de trabalhar com papelaria personalizada, em outro projeto contemplado pela LAB- Prêmio Feliciano Lana. O “Mãos que transformam a Amazônia” vai capacitar virtualmente para o processo de criação, corte e acabamento de embalagens de bombons amazônicos, como a bala do cupuaçu, muito apreciada e cultivada na região. 

“Nós vamos atender mães carentes que precisam de uma atenção nas quais elas não têm, porém elas têm habilidades e nós vamos aprimorar isso ensinando. As mulheres estão em uma situação na qual não tem o apoio 100% que precisam, por isso vamos mostrar que elas podem e têm ferramentas para produzir e fazer o dinheiro circular na própria cidade, alcançando a independência financeira”, conta a idealizadora Paula Carolinny, que trabalha há quase 7 anos no ramo de papelaria personalizada e capacita mulheres para empreender.

Rotina cabocla 

Espetáculo e documentário “Rotina Cabocla”
(Foto de Marcelo Ramos)

A ideia de um espetáculo com os movimentos cotidianos do ribeirinho veio quando Kevin Peres, coreógrafo há 13 anos no município de Codajás, interior do Amazonas, ouvia músicas regionais. “Ouvindo as músicas do Raízes Caboclas percebi que eles fazem uma grande narração a respeito do caboclo ribeirinho. Então criei um espetáculo com a ideia principal de tornar os movimentos típicos da rotina do ribeirinho como base para a coreografia”, conta. 

O espetáculo foi aprimorado e enriquecido após ser aprovado no edital Feliciano Lana. A boa repercussão resultou na criação de um mini-documentário retratando o processo de criação do espetáculo de dança, roteirizado e dirigido por Marcelo Ramos. Ambas as produções estão disponíveis na página do Portal Codajás.

Conversa corporal inclusiva e online

Foto Francis Baiardi

Outro projeto contemplado pela LAB por meio do Projeto Formar informar Des…transformar é a oficina “Memória na Dança”, que ocorre a partir desta terça-feira (13) até quinta em aulas ministradas pela plataforma Zoom (inscrições aqui) pela artista amazonense Francis Baiardi, gestora e produtora cultural da Contem Produção Cultural Cia Independente.

“Sendo do Norte, me sinto contemplada, pois temos um olhar muito sensível para outras regiões do Brasil, mas nós somos protagonistas das nossas provocações também. Ainda é preciso eles estarem olhando para cá”, disse a artista, evidenciando um ponto às vezes esquecido que a LAB tem provocado em grupos de todo o País, o da riqueza e diversidade cultural brasileira.

O projeto com oficinas de dança contemporânea é uma iniciativa feita para promover a integração entre artistas amazonenses e profissionais de outras capitais brasileiras durante os meses de março e abril. O diferencial é a adaptação de todas as oficinas para pessoas com necessidades especiais 

“Nós temos feito um levantamento das necessidades que têm aparecido em cada oficina. Nos adaptamos aqui para qualquer mediação necessária, seja surdez, cegueira ou quaisquer necessidade física de paralisia de algum dos membros. Enquanto equipe pensamos na dança de forma inclusiva porque sabemos que existem corpos e corpos, nem todos são iguais e têm a mesma acessibilidade. Entendemos com muita clareza a importância de ações como essa”, ressalta a pesquisadora, artista, educadora e idealizadora do Projeto, Amanda Pinto. 

A dança de forma virtual, busca também debater sobre novas formas de movimentação do corpo e permite uma “conversa corporal” entre os participantes. “Aquele buraquinho da tela (webcam) é um espaço pelo qual nós podemos conversar com a movimentação do corpo. Podemos dançar com as mãos, com os ombros ou com o tronco. São formas de dança que não perpassam pelas formas tradicionais de se fazer dança mas que envolvem um estudo do corpo, do movimento, conversando com a tela. A gente tem achado nesse trabalho com a câmera (meio virtual) muitas formas de trabalhar que outrora antes da pandemia não dávamos atenção. Tem sido muito interessante pensar dança dessa forma. Inscrições para as oficinas em: https://linktr.ee/ContemProducao Maiores informações no instagram @contemdancacia.

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Fonte: Amazônia Real
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