Artistas da Amazônia Legal ganham mentoria no Se Rasgum

Tradicional evento musical do Pará, o Festival Se Rasgum abre espaço para acelerar carreiras de dez artistas da região Norte (Foto: Bruno Carache/Divulgação)

Manaus (AM) – Nos últimos meses, a cantora e compositora Karen Francis se virou do jeito que deu para conseguir manter a renda dentro de casa. O rapper Carlos Oliveira, mais conhecido como MC Super Shock, afirma que a pandemia “piorou tudo, porque a arte é uma forma de sobrevivência financeira também”, algo que se tornou inviável sem shows ou apresentações. Íris da Selva resume: ser artista na Amazônia é um ato de “resistência diária”. Mas os três, Karen Francis, MC Super Shock e Íris da Selva, e outros sete artistas da região Norte têm o que celebrar, ainda durante esta pandemia. Eles foram selecionados, entre mais de 200 inscritos, no processo de aceleração de carreiras do Festival Se Rasgum, de Belém (PA).

Tradicional festival musical que acontece há 15 anos na capital paraense, o Se Rasgum lançou um projeto para oferecer mentoria exclusiva com profissionais do mercado musical nacional a dez músicos, entre grupos e artistas solos, da Amazônia Legal. A curadoria resultou na seleção de Drin Esc (PA), Jeff Moraes (PA), Klitores Kaos (PA), Móbile Lunar (PA), Núbia (MA), Raidol (PA), Soprü (TO), além de Iris da Selva (PA), Karen Francis (AM) e MC Super Shock (AP).

Karen Francis, representante do Amazonas no projeto, tem se destacado no cenário da música na capital amazonense, mas sente que participar da mentoria vai lhe render frutos. Com a aceleração de carreiras, os artistas vão apresentar seus trabalhos para compradores do mercado nacional e até mesmo internacional, além de realizarem trocas e conexões com artistas e produtores culturais. Ao final, espera-se que os artistas saiam com uma visão ampla do que vem acontecendo na cena musical tanto na região Norte quanto na do resto do País. Para a cantora, mesmo se não for selecionada para a apresentação no Festival Se Rasgum, a mentoria já terá sido uma grande oportunidade.

“Fazemos essa conexão, que é espontânea, que parte de nós, mas ter uma atenção específica de pessoas que trabalham com artistas que tem uma abrangência nacional e ter essa visão desses profissionais olhando para o teu trabalho com as suas questões, com as tuas dificuldades e os teus acertos é a primeira vez que isso acontece de uma forma tão específica”, enfatiza Karen.

MC Super Shock, que trabalha com o rap há mais de 10 anos e foi um dos co-fundadores da primeira batalha de MCs do Amapá, afirma que a mentoria é uma oportunidade para divulgar o seu trabalho e inspirar outros artistas do estado. Além de rapper, ele também é produtor musical e produtor audiovisual, onde busca impulsionar outros rappers, principalmente, os independentes. 

“Acho muito interessante ter um representante do Amapá. Fico muito feliz por ser eu e ficaria muito feliz também se fosse outra pessoa. De uma forma ou de outra, acaba também instigando outros artistas, não só no rap, artistas em geral, é um passo muito grande você ser reconhecido em seletivas de grandes festivais”, diz.

O Festival Se Rasgum

Os dez artistas selecionados terão mentorias com profissionais da música até o fim de novembro e também produzirão um single durante o processo. Ao final do programa, serão escolhidos três nomes que irão se apresentar na próxima edição do Festival. O Seletivas Se Rasgum foi contemplado pelo Edital de Multilinguagens – Lei Aldir Blanc Pará, e conta com outros apoios, como o da Fundação Cultural do Pará.

O Se Rasgum tem se consolidado na cena cultural de Belém, dando espaço para artistas independentes da capital, além da presença de atrações nacionais que costumam passar pelo festival. Os shows no palco têm sido marcados pela presença de diversos gêneros musicais. 

Para Renée Chalu, sócia da Se Rasgum Produções e idealizadora do festival, a proposta de expansão para ir além do estado do Pará já estava em desenvolvimento. E o objetivo sempre foi dar espaço para artistas da região Norte mostrarem os seus trabalhos. “É uma cena muito plural, criativa, e justamente para conseguirmos junto de uma grande rede mapear esses novos artistas para que o Brasil possa enxergar a Amazônia”, explica.

Iris da Selva, 25 anos, artista de Belém, busca mesclar o ritmo paraense carimbó, com outros gêneros musicais. “Tento trazer essa identidade minha e ao mesmo tempo tento projetar esse lugar Amazônia, Belém, Icoaraci (distrito de Belém). Sou compositor, um artista trans não binária e eu também trago essa minha existência enquanto não binária para a minha forma de ver também o mundo e expressar minha arte”, conta.

O artista afirma que participar das Seletivas Se Rasgum também foi uma forma de trazer visibilidade para as pessoas trans, pois o carimbó ainda é visto como um espaço ocupado apenas por homens. Com a mentoria, espera conseguir ter um panorama maior sobre sua carreira, saber quais pontos precisam de ajustes e onde investir seu tempo. “São coisas que eu já tentava entender buscando na internet, mas falar diretamente com uma pessoa que vai olhar para o seu trabalho, isso é impagável, é essencial e é um privilégio também”, expressa.

Mercado musical fragilizado

O rapper Super Shock com sua banda (Foto Divulgação)

São diversos os fatores que tornam o mercado na região Norte fragilizado. O Festival e as Seletivas se Rasgum buscam, segundo René, construir um mercado musical mais forte. Mesmo em estados aparentemente consolidados, como o paraense, há pontos a serem trabalhados. “O Pará tem uma posição maior, mas o mercado precisa se profissionalizar bastante, aprender técnicas, precisamos ser empenhar mais e isso tudo é um processo conjunto, entender como região, quais são as estratégias, quais são os caminhos, somos muitas Amazônias e com problemas distintos e muito em comum também”, afirma. 

A produtora cultural também relata que o mercado da região Norte ainda é muito invisibilizado para o resto do país, e que ela acredita ser pelas distâncias geográficas que, como pontua, “dificultam muito o processo de conexões, essas barreiras, isso é uma barreira grande ainda, como esses artistas circulam na sua própria região e no país todo”.

Para o rapper Super Shock, as barreiras surgem no seu próprio estado, o Amapá, como a ausência de uma gestão cultural de qualidade. “Colocam pessoas não capacitadas para administrar processos culturais que acabam atrapalhando o artista. Se não tiver iniciativa de coletivos independentes, é muito difícil ter essa iniciativa do Estado e do município. Então o que acaba nos deixando para trás muitas vezes é a falta desse incentivo”, explica.

Muitos obstáculos

Íris da Selva (Foto: Divulgação)

Ser um artista nortista vai além de apenas um termo. É visto como uma forma de mostrar suas raízes, mas deixando claro que ser um artista da região é tão válido como ser de qualquer outra parte do Brasil. As oportunidades, contudo, são mais escassas, fazendo com que os artistas da Amazônia busquem formas de driblar as dificuldades. 

“É muito difícil, existe uma competição, acabamos não conseguindo fazer as coisas em uma plenitude, até falo mesmo de estrutura, questão financeira, criatividade a gente tem, busca, está sempre explorando, mas a questão da estrutura mesmo, não ter recursos muitas vezes para fazer vai dando um desgosto, é  um resistência diária ser artista na Amazônia”, diz Íris da Selva, para pontuar a cena musical paraense.

No Amazonas, o cenário não é diferente. “O mercado musical aqui é muito resistente, é muito resiliente. Às vezes, é um pouco dicotômico, tem coisas que são super acessíveis e outras não, mas é um mercado musical que arranja maneiras de sobreviver”, pontua a cantora Karen Francis.

Segundo o MC Super Shock, o cenário em Macapá ainda está em crescimento, e que apenas agora estão começando a ter uma visão mais técnica do mercado. Na prática, ainda falta o público local valorizar seus artistas, pois ainda se consome muito do que artistas de estados, como Rio de Janeiro e São Paulo, produzem. “Em quantos Estados eu preciso tocar para sair de um artista regional para o de um artista nacional? Porque a partir do momento que você reconhece uma música do Sul, você considera um artista nacional, não quer dizer que ele toca em todas as cidades, quer dizer que você conheceu ele”, resume.

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Fonte: Amazônia Real
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