Chegamos! Histórias de mulheres negras na política brasileira

Por Gabrielle de Abreu e Valdenia Menegon

Brasil, 20 de novembro de 2021 – O desemprego chegou à marca de 14% e a fome – que havia sido praticamente extinta – acomete quase vinte milhões de cidadãos e mais da metade da população vive sob insegurança alimentar. Afora isso, mudanças climáticas são sentidas nos biomas do país, enquanto autoridades ambientais não disfarçam seu descaso. As desigualdades raciais explicitam-se ao ponto de não deixarem margem para o argumento do racismo sutil à brasileira. A intensificação dessas e outras mazelas pode ser atribuída à pandemia de Covid-19, que desde o fim de 2019 assombra o mundo. No Brasil, a questão sanitária é agravada por uma gestão desastrosa do governo federal, aprofundando disparidades sociorraciais.

Trata-se de um capítulo de nossa trajetória como nação que já desafia historiadoras/es experientes e iniciantes. O reconhecimento de sujeitos sociais que atuam para reverter esse cenário não pode passar despercebido no hoje ou ser ignorado pelas gerações futuras. Entre esses, mulheres negras brasileiras têm dado o tom da mudança. Foram elas as principais responsáveis pelas ações que mitigaram danos durante a pandemia. Elas lideraram, no país inteiro, iniciativas coletivas de promoção de saúde e enfrentamento à fome, à desinformação e à má gestão pública.

É bom lembrar que os projetos políticos das mulheres negras em 2020 não foram apenas direcionados ao trabalho comunitário. No último pleito eleitoral, para as câmaras de vereadores e prefeituras, as mulheres negras encabeçaram mais de 80 mil candidaturas no Brasil. 76% delas se concentraram na região Norte do país. Essas eleições marcaram época. De forma inédita, candidaturas autodeclaradas negras estiveram em maior número do que aquelas autodeclaradas brancas.

A despeito das tentativas de fraude, vimos emergir no debate público pessoas negras, LGBTQIA+, quilombolas e indígenas que não se intimidaram diante de ameaças e constrangimentos do jogo político partidário. O resultado nas urnas de Vivi Reis (PSOL), negra e bissexual, a vereadora mais votada em Belém (assumindo em 2021 vaga na Câmara Federal), e de Erika Hilton (PSOL), mulher negra trans e a vereadora mais votada do país, por São Paulo, expressa a potência desse momento.

Esse engajamento feminino negro na política institucional, aliás, não é novidade. O legado da atuação de mulheres negras demonstra que elas estiveram articuladas politicamente ao longo de toda a história do Brasil republicano. Se essa participação, por força do racismo e do sexismo, muitas vezes foi invisibilizada, a subalternidade não dá conta de suas experiências individuais e coletivas.

 Até mesmo na implementação do voto feminino no Brasil, na década de 1930, a presença de mulheres negras foi decisiva, especialmente a partir das articulações de Almerinda Farias Gama (1899-1999). Nascida em Alagoas, logo se mudou para Belém, no Pará. De lá, foi para o Rio de Janeiro em 1929, após constatar que, no mercado de trabalho paraense, sua remuneração era menor do que a dos trabalhadores homens que exerciam as mesmas funções.

No Rio, aproximou-se das ideias de Nísia Floresta, expoente do feminismo no país à época. Sob a influência de Nísia e junto com outras mulheres, Almerinda se mobilizou na luta em prol da participação feminina na política, principalmente na condição de eleitoras. A conquista do voto feminino se deu em 1932 e, apesar de Almerinda ter sido uma das figuras centrais do movimento, seu nome foi esquecido nas narrativas históricas acerca deste evento.

Voltando às eleições de 2020, as mulheres negras deixaram como legado a  organização e um dinâmico processo de aquilombamento em torno de suas candidaturas, em muitos casos articuladas com mulheres indígenas.

Vimos fortalecer um novo modo de fazer política parlamentar: os mandatos coletivos. Ou melhor, mandatas coletivas, como muitas fazem questão de marcar. Essa estratégia permitiu uma maior democratização do processo eleitoral e fortaleceu a ideia de quilombismo, como nos ensinou Abdias do Nascimento (1914-2011): “Cuidar de organizar a nossa luta, por nós mesmos, é um imperativo da nossa sobrevivência como um povo”!

Em tempo, vale recuperar uma história contada por Bianca Santana, em Continuo Preta: a vida de Sueli Carneiro. Após presenciar Abdias constrangendo a organização do Tribunal Bertha Lutz (1982) por não ter convidado mulheres negras para o júri simulado e se dizer obrigado a incorporar em espírito todas as suas ancestrais naquele momento, a intelectual ativista beijou a mão do militante, agradeceu por suas palavras e garantiu: “Eu prometo que o senhor não vai precisar fazer isso de novo. Não que não seja uma honra ser representada, mas o senhor não vai mais precisar nos representar. Porque nós vamos chegar.”

Chegamos!

Este artigo compõe a Ocupação da Rede de HistoriadorXs NegrXs em veículos de comunicação de todo o Brasil neste 20 de novembro de 2021.

A imagem que abre este artigo mostra a projeção da fotografia da filósofa, escritora, cofundadora e diretora do Geledés – Instituto da Mulher Negra, Sueli Carneiro na cúpula da Câmara dos Deputados, no Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. (Foto: Roque de Sá / Agência Senado)

Gabrielle de Abreu – mestra em História Comparada (UFRJ) e pesquisadora no Instituto de Estudos da Religião (ISER).

Valdenia Menegon – doutora em História (Unisinos) e cofundadora da Unegro Caxias. Ambas compõem o movimento Mulheres Negras Decidem e a Rede de HistoriadorXs NegrXs.

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Fonte: Amazônia Real
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