Cinema novo do Amazonas conquista prêmios

Filmes amazonenses da nova safra disputam e conquistam reconhecimento em festivais nacionais e internacionais. A Imagem acima as atrizes, Karol Medeiros e Isabela Catão em cena do curta Terra Nova (Foto: Larissa Martins/Artrupe)

São Paulo (SP) – Ruas desertas, um ou outro cachorro no horizonte, aqui e ali uma motocicleta de delivery. Em abril de 2020, Manaus (assim como as outras cidades do mundo) parecia uma cidade-fantasma. O rádio informava que a capital amazonense amargava então 81 sepultamentos por dia em média por causa da Covid-19. Mas, para Karoline (Carol Medeiros) e sua irmã, Isabela (Isabela Catão), não havia jeito: era preciso pegar as bicicletas e sair em direção à agência da Caixa e tratar dos auxílios emergenciais, a diferença entre ter uma chance ou nenhuma de sobreviver.

Com esse tema de veloz atualidade, uma travessia épica dos tempos modernos, o filme amazonense Terra Nova, do diretor Diego Bauer,  faturou em 2021 os prêmios de Melhor filme estrangeiro no Istambul Film Festival, na Turquia, e foi incluído na seleção do mês de julho no Luleå International Film Festival, na Suécia (que tem premiações mensais e também uma anual).

Terra Nova não está sozinho nas distinções internacionais recentes a filmes feitos na Amazônia. Há várias outras, como a produção Graves e Agudos em Construção, de Walter Fernandes Jr. (carioca que vive em Manaus desde 2015), que levou os prêmios de Melhor Filme (na categoria Drama), Melhor Diretor (Walter Fernandes Jr) e Melhor Cartaz (Jefferson Arcanjo) no festival online V.i.Z. Film Fest 2021 – mostra criada pelo ator ucraniano Anatolii Anatoliev.

Diversos outros filmes feitos na Amazônia fisgaram prêmios nessa temporada:  O Barco e o Rio, de Bernardo Ale Abinader, é talvez a mais galhardonada de todas. Recebeu menção especial do júri no 49º Festival Internacional de Cine de Huesca, na Espanha, e no Festival de Gramado levou cinco prêmios Kikitos ­- Melhor Curta Nacional, Melhor Diretor e Melhor Curta do Júri Popular, Melhor Fotografia e Melhor Direção de Arte. Abinader (e sua sócia, Valentina Ricardo) são também as chamadas “pratas da casa”, foram formados no curso de Audiovisual da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), que ironicamente foi extinto. “Um absurdo. Se tivéssemos um curso fixo e mais investimentos, estaríamos em um patamar ainda maior no nosso cinema”, afirmou Abinader.

O cinema da Amazônia, como se sabe, não é um recém-chegado. Trata-se de uma experiência centenária que começou ainda no século 19 com Silvino Santos (1886-1970), figura pioneira magistralmente recuperada pelo diretor Aurélio Michiles no filme O Cineasta da Selva, em 1997. Essa vocação permanece vigorosa. A atriz Isabela Catão, que vive em Manaus e participa de duas das novas premiadas produções da região, Terra Nova e O Barco e o Rio, define assim o seu sentimento: “Eu percebo que cada vez mais as pessoas que fazem cinema aqui e que são daqui querem falar sobre a cidade e falar das histórias de quem a habita. E isso tem se dado de uma forma cada vez mais presente”.

A multiartista Keila Serruya Sankofa, produtora, realizadora audiovisual e artista visual, que vive e trabalha em Manaus, alicerça suas forças criativas na ideia de que a rua é um território no qual também o cinema pode existir como espaço de exibição e força de intervenção. O reconhecimento não tardou: Keila foi uma das 64 indicadas do País todo à 12ª edição do Prêmio Pipa 2021. Em abril, seu filme “Seo Geraldo – Homem de Planta e Terra” (codirigido por Sindri Mendes) foi selecionado para a 6ª edição EGBÉ –  Mostra de Cinema Negro de Sergipe 2021. O curta relata a história de seu Geraldo, um  dos moradores mais antigos de sua comunidade, testemunha de um Brasil profundo. “O principal problema do Brasil é o racismo descarado e estruturado”, analisa Keila. “Eu quero ver pessoas pretas e indígenas, em suas diversidades de gênero, narrando suas próprias histórias. Estamos no início desse longo caminho, compreendo que a televisão e o cinema branco e rico ainda insistem em nós caricaturar e deslegitimar e tô inquieta por essa injustiça, mas não cansada”, avisa.

Força interpretativa

É uma safra de cinema feita de atualidade, diversidade e também de força interpretativa. E que incorpora temas e realidades que não são corriqueiramente notadas pela agenda reformista de um País afundado em obsessões financistas. “Se a gente vender o barco, como é que a gente vai viver?”, diz à rebelde irmã a personagem de Isabela Catão (atriz que já está em seu 9º filme) em O Barco e o Rio. Só pelo fato de permitir ao espectador de outros rincões do País compreender essa encruzilhada entre tradição e absorção já seria uma façanha do filme.

Mas é uma produção marcada também pela diversidade. À Beira do Gatilho, do diretor Lucas Martins, rodado em plena pandemia com uma cuidadosa estratégia de isolamento, revisita o clássico cinema de detetive noir com algum condimento de humor (com os atores Adriano Holmes, Alexandre Mourão e Ricardo Gabriel). O buraco, de Zeudi Souza (com 14 curtas no currículo e prestes a rodar o primeiro longa), vai para o lado do hiperrealismo, abordando a questão da violência contra mulher, a violência doméstica. No Céu da Boca Cresceu Saturno, do dramaturgo e cineasta Francis Madson, é outro trabalho de abordagem alegórica, inspirado na célebre tela Saturno devorando um filho, do pintor espanhol Francisco de Goya. Trata de um relacionamento conturbado de um casal (interpretado por Victor Kaleb e Amanda Magaiver).

O documentário Itacoatiaras, do cineasta amazonense Sérgio Andrade (em parceria com a artista carioca Patrícia Gouvêa), foi selecionado para a 12ª edição do Fórum Internacional de Coprodução Brasil CineMundi, na categoria Produção. O documentário, que se propõe a evidenciar o tema das matrizes ancestrais do País, trata das diferenças e semelhanças entre dois locais homônimos: a praia de Itacoatiara (a 20 quilômetros de Niterói, no Rio de Janeiro), e o município de Itacoatiara (na região metropolitana de Manaus), separadas por 4,5 mil quilômetros de distância um do outro.

Há nesses filmes variedade de linguagens, de temas e também de ambições. O Barco e o Rio é um curta-metragem, mas ganhou um edital para desenvolvimento de roteiro e começa a se tornar um longa-metragem já em 2022, assim como outro curta, Obeso Mórbido, de Diego Bauer e Ricardo Manjaro, que estreou na Internet em abril e virará longa-metragem em breve pelas mãos de outro edital. “A gente parte do curta, mas é um filme bem mais narrativo, que a gente pretende gravar no segundo semestre que vem se conseguir algum recurso”, conta Bauer.

O Barco e o Rio coroa assim uma trajetória fabulosa. Após vencer em 5 categorias no prestigioso Festival de Gramado, ganhou quatro troféus Mapinguari no festival Cinemazônia e as distinções do Prêmio do Júri no Cine Ceará e da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).  E agora, ao lado de outro curta amazonense celebrado, Manaus Hot City, do diretor Rafael Ramos, O Barco e o Rio foi escolhido para a mostra Shorts México 2021, único festival internacional de curtas-metragens do México. Os dois integram a competição ibero-americana de filmes de ficção ao lado de obras do Chile, Colômbia, Espanha e Uruguai.  O Shorts México 2021 será realizado entre os dias 1º a 8 de setembro.

Novo cinema do Amazonas

Imagem de stil do filme Graves e agudos em construção de Walter Fernandes
(Foto: Divulgação)

O novo cinema da Amazonas movimenta dramaturgia, desenvolvimento técnico e gera emprego, além de alimentar o debate teórico. Há compositores que fazem música especialmente para essas produções, assim como músicos que se integram aos sets de filmagem. Uma movimentação que sugeriria a criação de um polo audiovisual imediato, caso houvesse uma ação do Estado de fato interessada.

Graves e Agudos em Construção é o oitavo curta da carreira de Walter Fernandes. Conta, com tintas de surrealismo, a história de um pedreiro (Álex Jansen), uma prostituta (Júlia Kahane) e um menino (Rhuann Gabriel, que apesar da idade, 10 anos, já fez dois curtas e atua no teatro), personagens que buscam novas perspectivas para suas vidas. É um dos muitos roteiros que Fernandes tinha escrito havia cerca de uma década, quando estava na faculdade de cinema, e que já tinha tentado filmar no Rio, mas desistiu por falta de tempo.

Para Walter Fernandes Jr, o ponto de contato que ele poderia apontar entre os cerca de 20 diferentes curtas-metragens desse surpreendente lote amazônico é o fato de que todos eles são provenientes de editais. Um dos aríetes dessa política pública veio da Lei Aldir Blanc, implementada para atenuar o impacto da pandemia no setor cultural e que começou a irrigar produções no final do ano passado. Todos os projetos foram contemplados no Prêmio Conexões Culturais 2020 – Lei Aldir Blanc – Audiovisual. Some-se a isso os editais do Estado do Maranhão e a legislação local, a Manauscult, e o saldo é essa surpreendente vitalidade sazonal. O fluxo do novo cinema da Amazonas poderia ser potencializado com algumas iniciativas. Há, por exemplo, a lei municipal de incentivo à cultura já aprovada em Manaus, por algum motivo não explicitado, não entrou em funcionamento até agora. Poderia dar um gás.

“Desde que eu estou aqui, há 7 anos, a questão do estímulo à produção vem de políticas públicas”, avalia Walter Fernandes. Com o adicional da Lei Aldir Blanc, o orçamento para premiar editais de projetos audiovisuais cresceu significativamente. “Esse cinema que está chegando da Amazônia, deste ano para o ano que vem, é produto dessas políticas públicas, desses editais lançados no final de 2020”, ele diz, ponderando, entretanto, que o futuro é bastante incerto: mudou a gestão na prefeitura, que lança os editais, e em breve haverá também mudança de governo estadual. “Não sabemos que tipo de política será colocada.”

Cinema cheio de diversidade

O fato de ser um cinema cheio de diversidade é visto como positivo pelo cineasta. “Existe uma diversidade conceitual. O meu filme está mais ligado a um drama surreal, nada realista, que usa de símbolos e alegorias. O Barco e o Rio e Terra Nova são mais realistas, com O Barco e o Rio também ligado à questão da mulher, da repressão. O Terra Nova tem a questão da pandemia, do trabalho, da questão do emprego. Buscam se reinventar, sobreviver nesse mundo. Em termos de temas e de formas, são todos diferentes”, explica Fernandes.

“A Amazônia é constituída de povos tradicionais, pretos e indígenas; somos tecnologias de linguagens e trazemos conosco uma diversidade de ferramentas humanas. Nossa criatividade não é de agora, nada novo – o que é um começo são os pequenos fomentos que começamos a acessar há alguns poucos anos”, afirma Keila Serrya Sankofa.

Os efeitos da pandemia, tratados com grande sensibilidade no filme Terra Nova, não são ainda um fenômeno que tenha uma unanimidade no meio audiovisual da Amazônia. “Tenho certeza de que a gente ainda vai passar muitos anos pensando no que a pandemia nos trouxe e nos tirou”, diz o diretor Diego Bauer, que se diz muito consternado com a situação. “Não consigo pensar em muito aprendizado, não. Só consigo ficar me lamentando sobre as coisas terríveis que ela trouxe. De um modo geral, o primeiro aprendizado mais óbvio, e que muitos já sabiam, é que um governo que despreza o povo acaba de fato causando malefícios para toda a sociedade.”

Mas a produção realizada em tempos de isolamento social acabou trazendo pelo menos um efeito evidente para os coletivos de criação. “Talvez, de alguma maneira, a gente estivesse se afastando muito, e (a pandemia) trouxe algum tipo de solidariedade, nem que seja para com as pessoas mais próximas da gente. Há os que têm empatia. Os que não têm, tudo continua a mesma coisa. Foi um momento de susto e de muita reflexão sobre a fragilidade da sociedade na qual a gente vive e como isso nos obriga a ser um pouco mais vivos e afetuosos com quem está perto”, finaliza Bauer.

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Fonte: Amazônia Real
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