Discurso de ódio no Twitter – entrevista com Fernanda K. Martins

Na última edição de sua revista digital, a Elle Brasil publicou a matéria No Twitter, gosto se discute – a thread. A matéria foi produzida pelo jornalista Matheus Fernandes e contou com contribuição de Fernanda K. Martins, coordenadora da área de Desigualdades e Identidades do InternetLab.

Aqui, publicamos a entrevista completa concedida à Revista Elle.

Várias redes têm papéis na atuação de grupos de ódio e na radicalização de novos membros, como o Youtube e Facebook. Ainda assim, a impressão é que o Twitter é o mais usado para esses ataques virtuais. Por que isso acontece? Quais os elementos da rede que a tornam propícia para esses ataques?

Cada rede social tem suas próprias características, o que as faz também ter membros com particularidades. Não são todas as pessoas que estão no Twitter e também no Youtube ou no Facebook. Isso é algo importante a ser considerado quando pensamos na maneira como os discursos se propagam de uma forma ou de outra em uma rede social. No que diz respeito, especificamente, ao Twitter, esta rede é marcada por duas características principais. A primeira é que as notícias surgem lá em um primeiro momento, disseminando-se posteriormente para outras redes sociais. Esse é um ponto que pode fazer com que as reações às informações sejam mais rápidas no Twitter e acabem chamando mais atenção. A segunda característica é que o Twitter não é uma rede orientada apenas para conversas pessoais, nele qualquer pessoa pode interagir com qualquer pessoa. Isso faz com que o alcance seja mais amplo do que em outras redes sociais. Essas duas características nos permitem falar que essa arquitetura está relacionada à forma como as mensagens se disseminam e chegam amplamente a perfis diversos de pessoas, influenciando, em alguma medida, em como os conflitos podem vir a acontecer.

Tem um outro ponto importante que também merece ser considerado. O Twitter acaba sendo mais estudado em pesquisas do que outras redes sociais, o que ocorre porque esta plataforma é mais aberta para que pesquisas aconteçam. O Twitter tem maior transparência de seus dados. Essa transparência é fundamental para que instituições consigam fazer pesquisas e levantamentos de como os discursos ocorrem, por outro lado, isso pode gerar a sensação de que no Twitter há mais ódio sendo disseminado do que nas outras redes sociais. É algo que precisa ser pensado com bastante cuidado.

 

Os principais alvos desses ataques são grupos minoritários, as mulheres têm muito mais chance de receber ataques do que homens, e mulheres negras do que mulheres brancas – só lembrar dos inúmeros casos de assédio organizado a essas mulheres. Por que isso ocorre? É algo do mundo real transposto para a rede? Ou o próprio Twitter potencializa o ódio contra esses grupos?

 

Entender quem são os alvos desses ataques e como eles ocorrem, só é possível se levarmos em consideração a forma como a nossa sociedade se organiza. Como nos lembrava a antropóloga Lélia Gonzalez, a sociedade brasileira é marcada por uma tentativa de invisibilização de nossas heranças africanas e indígenas. Nos constituímos enquanto sujeitos e enquanto sociedade na tentativa de negar aquilo que não estava relacionado às heranças eurocêntricas. O mesmo ocorre em relação às mulheres, ao considerarmos mulheres de forma múltipla, compreendemos também que há especificidades relacionadas ao que mulheres negras, brancas, asiáticas e/ou indígenas vivem diariamente.

Desse modo, constituímos grupos que são lidos como minorias políticas, ainda que não sejam necessariamente minorias numéricas. Quando falamos sobre a internet, no geral, e as redes sociais, em particular, estamos diante de um duplo movimento que traz à tona o que já constituía a nossa história enquanto sociedade, mas que também atualiza a forma como as violências acontecem.

O movimento é duplo porque podemos dizer que se por um lado nós vemos nas redes sociais violências que compõem o nosso cotidiano, então racismo, sexismo, LGBTfobia constituem esses espaços na internet, por outro lado, as redes sociais e o anonimato que atravessa o modo como elas funcionam, permitem que haja reinvenções da violência. Então, não é apenas uma transposição, o anonimato e as dinâmicas das redes sociais levam ao surgimento de novas práticas e, assim, ao fortalecimento do que já ocorria em outros espaços.

Um exemplo recente disso é o zoombombing, não é novidade que grupos conservadores politicamente  queiram silenciar grupos que foram historicamente tidos como subalternos. Só que quando isso ocorre ao silenciar lives ou eventos online que estão acontecendo, o silenciamento que, por vezes, poderia ser mais “sutil” ou “menos direto”, ganha uma esfera prática e brutal. Você silencia de forma explícita, você impede que aquela pessoa fale, que aquele grupo de pessoas possam se comunicar. É uma reinvenção de práticas que aconteciam antes, mas que na internet ganham uma outra maneira de acontecer.

 

Captura de tela da matéria da Elle Brasil

 

As redes, inclusive o twitter, tem uma atuação discreta no combate ao discurso de ódio, em parte por uma defesa da ideia de “Liberdade de expressão”. Como isso impacta? Defender essa suposta liberdade não acabaria acarretando na redução de liberdade dos alvos?

 

Ao pensarmos sobre discurso de ódio, é importante termos em mente que redes sociais como Facebook, Youtube e Twitter não são plataformas brasileiras. O fato de serem plataformas estadunidenses faz com que tragam debates que estão muito presentes em seu país de origem. Lá, o debate sobre liberdade de expressão versus discurso de ódio é bastante importante e traz muitas problematizações relacionadas a qualquer que seja a tentativa de controlar algum tipo de discurso, no fim fica sempre a questão “estamos coibindo violência ou estamos cometendo censura?”.

Essa é uma questão que também é pensada por aqui, mas com uma intensidade um pouco menor, porque, diante da conturbada história política brasileira, nós não construímos de uma forma tão forte o respeito e a defesa da liberdade de expressão. Isso não significa, por outro lado, que também não nos façamos questões semelhantes por aqui.

Quando trabalhamos com internet, direito e tecnologia, algumas perguntas atravessam a nossa compreensão sobre o que acontece nas redes sociais e a melhor forma de lidar com esse tipo de evento. No fim, também questionamos: até onde é válido que se tenha controle sobre o que é dito nas redes sociais? Qual é o limite entre se expressar e trazer à tona um discurso que ofende grupos historicamente tidos como subalternos? Quem deve ter esse controle?

Ainda que as perguntas não sejam simples de resolver e que levantem inúmeros desafios, algo precisa ficar bastante evidente: não é possível deixar de lado os discursos de ódio e  utilizar como desculpa para isso o amparo à liberdade de expressão. Quando os discursos de ódio se direcionam a grupos como mulheres, LGBT+ e de pessoas negras, há aí a tentativa de retirar esses grupos do cenário político ou de um cenário social que possa ouvi-los, que os torne mais audíveis do que foram historicamente. Podemos dizer, assim, que nesses ataques há uma tentativa nítida de silenciamento e propagação de violências discursivas contra esses grupos. Então, sim, defender liberdade de expressão a qualquer custo significaria restringir vozes e reduzir a liberdade daqueles que são alvo dessas violências.

 

Os efeitos negativos são bem conhecidos, mas é possível a rede ter efeitos positivos nesse sentido também? Oferecer educação, conhecimento sobre temas ligados à identidade e até reduzir o discurso de ódio?

 

Sim, é possível. Há uma dinâmica também bastante própria das redes sociais que é tornar audível grupos sociais que frequentemente não possuíam espaços para se posicionar como gostariam. A partir do uso da internet e das redes sociais, nós começamos a ter mais espaço para ouvir pessoas negras, LGBT+, feministas. Inclusive, espaço para ampliar o escopo de quem fazia alguns debates, o que levou à reivindicação e ao questionamento da autoridade de muitos intelectuais brancos que estavam bem estabelecidos academicamente, por exemplo. Isso significa dizer que muito do que fazia parte da invisibilidade de grupos até então bastante silenciados foi descortinado. Nesse processo de descortinamento, nós também podemos dizer que surgiu espaço para que alguns problemas que pareciam ser individuais, tenham começado a ser lidos por outras lentes, podendo, assim, ser entendidos como problemas que pertenciam a uma coletividade de sujeitos.

Um exemplo importante disso é o fato de que a internet, desde os blogs e, mais tarde, com as redes sociais, abriram espaço para que houvesse trocas de experiências entre os sujeitos. Isso pode ser observado, por exemplo, quando pensamos em campanhas online, muitas vezes encabeçadas por páginas e/ou coletivos, relacionadas a violência de gênero. Como demonstrado por pesquisadoras como Regina Facchini e Carolina Branco, ambas da UNICAMP, algumas campanhas feitas por meio de # trouxeram temáticas muito importantes para o cenário público, como foi o caso do fortalecimento da categoria relações abusivas.

Tenho percebido em minha pesquisa de doutorado, cujo tema é a produção da categoria relações abusivas no Brasil, que o debate em torno do que é ou não é abusivo, de quais características estão ou não presentes em uma relação abusiva, foi algo que ocorreu fora das redes sociais, mas também em diálogo constante com as redes sociais.

É claro que as chamadas “bolhas algorítmicas” não permitem que os debates cheguem de forma tão ampla a todas as pessoas e todos os assuntos alcancem a todos, mas é sim possível afirmar que muitos debates importantes foram influenciados e incitados a ocorrer socialmente pelo que a internet, de forma mais geral, e as redes sociais, de forma mais específica, geram.

 

Por fim, qual sua opinião sobre a atuação do Twitter? A sinalização de coibir com mais intensidade esses crimes têm tido efeitos reais, ou ainda é tudo meio terra de ninguém?

 Acredito que a atitude do Twitter de se posicionar no sentido de coibir a disseminação de conteúdos que sejam compreendidos como discurso de ódio é bastante positiva. Podemos ligar essa decisão às pressões populares que têm ocorrido no último período. As últimas eleições nos Estados Unidos e também as eleições brasileiras demonstraram um poder das redes sociais que até então não estava tão evidenciado para a maior parte das pessoas. A partir disso, passamos pelo processo de reivindicação de controle das informações falsas, da disseminação dos discursos de ódio, porque aí houve um maior entendimento de que as redes podem influenciar e influenciam, muitas vezes de forma decisiva, os rumos da política, a coexistência social de grupos políticos distintos e a vida das pessoas. Essas pressões têm gerado decisões importantes, uma delas foi o Facebook, Twitter e Youtube terem se posicionado, no último 23 de setembro, se comprometendo a combater conjuntamente o discurso de ódio. Esses acontecimentos me levam a pensar que a compreensão bastante comum de uma internet que é terra de ninguém tende a cada vez mais se desfazer. Talvez estejamos testemunhando um começo desse processo de desfazimento, mas é necessário deixarmos nítido que ainda há muito a ser feito, as tentativas de coibir a disseminação de discurso de ódio ainda são bastante tímidas perto do tamanho do problema.

 

 

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Fonte: Internet Lab
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