ESPECIAL | Pablo Cerdeira: “A administração pública precisa ser transparente com relação aos dados e a como ela os usa”

Esta é a quarta da série de entrevistas sobre inteligência artificial, algoritmos e plataformas de internet, que compõem o nosso Especial Inteligência Artificial. A entrevista, realizada em 2020, faz parte de uma série realizada por alunos integrantes do Núcleo de Direito, Internet e Sociedade (NDIS). O NDIS é atividade de cultura e extensão da da Faculdade de Direito da USP (FDUSP) oferecida em parceria com o InternetLab desde 2015.

Pablo Cerdeira é sócio do Galdino e Coelho Advogados. Foi, dentre outros cargos, Chief Data Officer da Prefeitura do Rio de Janeiro.

Nesta entrevista, ele discutiu o acesso a dados públicos, viés algorítmico, privacidade, transparência e sua experiência na prefeitura do Rio de Janeiro com o projeto “PENSA”.

A administração pública precisa ser transparente com relação não só aos dados, mas como ela os usa. Não basta colocar portais de dados abertos, ela precisa abrir os códigos do que está fazendo e ter espaço para que a sociedade venha trabalhar junto. […] É preciso, então, fazer todo um trabalho de ponderação e aí sim usar dados oficiais para fazer correções de modelo e isso, de novo, tem que ser transparente e com a sociedade criticando, para que a gente consiga ao final, ainda nessa fase de transição, ter modelos que sejam minimamente representativos, transparentes e que melhorem a prestação da administração pública, sem os vieses que os dados ainda têm e que vão ter por um bom tempo.

Confira a entrevista com Pablo Cerdeira na íntegra

O advento da internet trouxe mudanças abruptas e profundas para a nossa sociedade, sendo, por isso, definida por muitos como uma “revolução”. Em 2017, num debate sobre Mobilidade Urbana, você disse que a internet é apenas um meio e que a grande revolução está relacionada à conectividade, ao uso de dados e à Inteligência Artificial. Como esses três fatores se relacionam e podem transformar as estruturas sociais?

Com relação à questão da conectividade, o que parece um ponto bastante pacífico, há uma dissolução do que costumamos chamar de bases do nosso modelo jurídico. Ao longo do tempo, fomos criando estruturas jurídicas, todas elas pautadas no modelo de Estado que pode impor regras, sanções e em que há o monopólio do exercício da força por um agente estatal. Quando a gente fala de conectividade, aqui no sentido mais amplo, incluindo a conectividade de pessoas que estão dentro ou fora de um território, é muito difícil utilizar as regras básicas do direito hoje para regular esse tipo de realidade. Então, eu digo que não é propriamente a internet, até porque a internet em si pode ser regulamentada. Há casos de países que têm regulamentações eficientes, apesar de se pautarem em tecnologia, como por exemplo a China, que consegue regulamentar a internet dentro do seu espaço. O ponto que me parece crucial para elencar isso como uma verdadeira revolução, o primeiro desses pontos, é o rompimento desse pilar do direito estatal. A gente precisa pensar em novas formas de regulação. Então, o primeiro ponto que me parece importante é distinguir essa estrutura de onde nasce e onde se dá o direito no âmbito de ampla conectividade global. E, ainda que eventualmente hoje a gente possa falar que a internet ainda não é plenamente democratizada, isso é algo tecnológico, que vai ser superado, todo mundo vai estar conectado, não importa quem quer que seja. E nesse cenário, como é que o direito baseado no território vai conseguir regulamentar? Eu não vejo ainda uma solução bem desenhada para isso. Esse é o primeiro ponto. Um segundo aspecto que me parece muito importante deriva deste e é o grande fluxo de dados que existe nesse ambiente. Nunca na história da humanidade tivemos capacidade de ter tantos dados e tantas informações sobre o comportamento individual de cada um, e com isso tentar mapear tudo que ocorre numa sociedade. Esse é um outro ponto também que afeta a estrutura do direito como temos, porque o direito foi sempre baseado em regras como no Direito Penal, em que as determinações jurídicas são: se se cometeu um crime x, pena de y, como está no direito positivado. Num ambiente amplamente conectado e com toda a sociedade informando dados, para o bem e para o mal, não fazendo nenhum juízo de valor aqui, isso pode ser usado tanto para o bem, como também para um extremo monitoramento de uma sociedade, como já acontece em alguns lugares e vemos ameaçado de acontecer em outros. Nessa realidade, como o direito vai definir regras abstratas ou como ele vai conseguir, a partir de regras abstratas, determinar comportamentos que são absolutamente mapeáveis ou controláveis, a partir de determinados ambientes. Se você imaginar, naquele modelo do panóptico, da sociedade de vigilância, o comportamento ali se dá não pela lei, não pela regra, mas pelo medo da vigilância que está sendo incutida naquelas pessoas que estão nessa sociedade. Então, eu pergunto, como o direito em um ambiente de extrema vigilância vai se comportar e como essa sociedade vai se comportar. Será que são as normas jurídicas que vão impor o comportamento ou será que, num ambiente em que, voltando para o primeiro ponto, as normas da sociedade baseadas em um direito territorial, as normas positivas de um direito clássico, têm pouca influência num modelo globalizado. Como é que as normas de comportamento dessas redes, desses ambientes que estamos, talvez não tenham mais influência sobre o comportamento do que as próprias normas jurídicas. O terceiro ponto: o que você faz com esses dados que são produzidos nesse segundo problema, como isso se reverte para a sociedade. Nesse terceiro cenário, como é que decisões automáticas baseadas em dados da própria sociedade não vão acabar impactando em normas de conduta que mais refletem, positivamente, uma demanda da sociedade ou que mais repetem, negativamente, vieses e aspectos negativos da sociedade. Um exemplo: os modelos norte americanos de julgamentos, que avaliam a chance de reincidência de um preso, com base nos dados históricos de pessoas que tenham comportamento base. São casos em que o sistema avalia uma série de variáveis das pessoas que estão pleiteando uma progressão de regime, para dizer se ela deve ter direito a esse benefício ou não. É claro que, usando esses dados disponíveis no sistema, você agiliza muito o processo decisório do juiz. Mas, por outro lado, o grau de reincidência é, ou tende a ser, maior entre negros, pobres, entre populações que estão num contexto social que acaba empurrando mais para a reincidência. Se a gente joga para um ambiente que tem essa capacidade de tomada de decisão (e ele tem, os dados servem pra isso), mas sem uma supervisão humana, como isso vai impactar o comportamento da sociedade? Eu acho que são esses três pilares que vejo como os três principais pontos que deveríamos nos atentar nessa nova realidade.

Considerando um contexto de crise democrática, na qual os cidadãos se veem pouco representados por seus governantes, como o uso de dados pode fortalecer a democracia? Nesse sentido, você acredita que estamos diante de um novo modelo democrático?

Não tenho dúvidas que estamos diante de uma demanda, pelo menos, por um novo modelo democrático. Esse é um ponto que eu costumo bater bastante. A gente vive numa sociedade muito dinâmica, hoje em dia, e muito customizada para cada usuário. Dado esse cenário, onde temos todos os serviços, por onde nos alimentamos e por onde acabamos formando nossa personalidade, ultra customizados e em tempo real, o modelo democrático que, a cada 4 anos, faz uma eleição, apresenta planos de governo, que em tese seriam aplicados por mais 4 anos, ou talvez por 8 como na reeleição; ele é absolutamente incompatível. Nossa sociedade já é sensível a isso, mas pensando em mais 10, 20 anos para o futuro, eu não vejo como uma sociedade [vai] se sentir representada vendo as suas demandas mudando a todo momento, com base num plano que foi votado três, quatro anos atrás. A demanda que a gente tinha o ano passado, fora de um cenário como esse da COVID, por exemplo, é totalmente diferente da demanda que se tem nesse cenário. Um plano de governo que foi votado ano passado ou retrasado não tem mais nenhuma aderência a essa realidade que temos hoje. Então, nesse ambiente ultradinâmico, se não pensarmos em modelos participativos que tragam a sociedade para dentro do processo decisório das democracias, estamos criando um afastamento e, muito provavelmente, tendendo a um rompimento dessa representatividade, que em tese acontece com o voto. Isso tem se mostrado muito presente em várias manifestações, seja nos EUA, desde o Occupy Wall Street, na Europa, na Primavera Árabe, aqui no Brasil, com as Jornadas de Junho [de 2013] e agora mais. Eu não vejo como o nosso modelo democrático vá conseguir superar essa conectividade global em escala, que atende a customizações em cima de dados e de inteligência artificial, se o nosso modelo democrático não for repensado. Então, precisamos refazer isso e refazer urgentemente, sob pena de vivermos em constantes crises de representação.

A manipulação de grandes volumes dados tem um papel importante no atendimento aos interesses da sociedade, mas provoca muitas discussões acerca da privacidade dos usuários. Quais são os principais riscos no uso de big data? O potencial do uso desses dados anônimos/anonimizados supera esses riscos?

Bom, tudo depende muito da transparência com que isso é feito. Se estivermos falando da necessidade de superar essa crise representativa da democracia que comentei agora, os dados não são só importantes, eles são a base para fazer isso. Não tem como se pensar em um novo modelo representativo, um novo modelo dinâmico, em que a sociedade consiga participar com suas demandas no dia a dia na gestão, sem usar grandes volumes de dados. Então, não tem como pensar num novo modelo de governo sem isso. Agora, isso pode desembocar em dois tipos de governos muito diferentes. Você pode ter um modelo não transparente, altamente concentrador de poder, altamente autocrático, no sentido de que é algo determinado sem o acesso, sem a transparência necessária, sem a participação da população. Ela participa só indiretamente, fornecendo dados. Ou você pode ter um modelo de governo muito mais transparente e muito mais aberto à participação, desde que haja transparência nesse processo. Então, a palavra chave é transparência. Como é que isso pode ser feito? No caso da prefeitura do Rio de Janeiro, por conta de limitações, o que conseguimos fazer, com uma equipe pequena, foi abrir os dados e colocar o máximo possível das análises que fazíamos de forma pública, disponibilizando códigos fontes e chamando a academia para participar. No caso da prefeitura do Rio, nós só conseguimos abrir e ser totalmente transparente para poucos grupos, porque isso demanda uma estrutura da administração pública que nós não tínhamos e, hoje, ainda não tem no governo. É uma estrutura de transparência que não está só preocupada em abrir dados, mas em discutir o uso de dados também com a sociedade, porque se eu simplesmente abro dados para um grupo ou para outro, sem participar com eles desse debate, sem tornar público o que a gente está debatendo ali, eu posso gerar o mesmo risco que eu gero de um governo autocrático, mas na mão de grupos muito restritos. Nós não temos ainda uma democratização do uso de dados, não temos equipes pela cidade toda que estão analisando, fazendo críticas e sendo ouvidos pela administração. Para chegar nesse cenário, se pensarmos no cenário ideal, qual seria? Ter diversos grupos na sociedade civil, na academia, usando intensivamente os dados disponibilizados pela administração e dando sugestões de atuações, com base nesses dados, e recebendo o retorno disso, ou seja, é preciso fechar um ciclo. Se não fechar esse ciclo de abertura de dados, de uso, de impacto na sociedade e de devolução disso, o que foi feito e o que melhorou com base nesses dados, se parar em qualquer lugar desse meio de caminho, está se distribuindo o poder de forma errada. Ou está se distribuindo o poder de forma errada para a administração, que passa a ter muitos dados, mas não é transparente. Ou está se abrindo esses dados só para grupos específicos que, por sua vez, vão estar empoderados contra a sociedade. Não adianta nada abrir tudo isso e ter simplesmente cinco ou seis grandes empresas que estão usando esses dados, citando hipoteticamente grandes empresas de tecnologia que saibam trabalhar grandes volumes de dados ou grandes empresas de varejo. Por exemplo, se eu abro os dados da Prefeitura e só as empresas de varejo têm capacidade técnica para receber esses dados e analisá-los, eu talvez esteja gerando um prejuízo para o comércio local em detrimento do grande varejista, que tem capacidade de analisar esses dados e saber onde colocar suas lojas, seus produtos etc. Então, esse processo de abertura e de participação da sociedade tem que ser acompanhado, especialmente num primeiro momento, até que a sociedade, como um todo, esteja apta a trabalhar esses dados, sob pena de, no meio do caminho, ser menos democrático do que hoje com a votação. Respondendo mais objetivamente, a minha grande preocupação no uso de dados, para isso, é não vir acompanhado de grande transparência e de um grande incentivo para que a sociedade entre nesse processo. Eu acho que esses são os pontos principais.

Como é possível minimizar esses riscos e garantir que o uso de dados pelo poder público não será indiscriminado, nem desvirtuado?

Primeiro, é transparência. A administração pública precisa ser transparente com relação não só aos dados, mas como ela os usa. Não basta colocar portais de dados abertos, ela precisa abrir os códigos do que está fazendo e ter espaço para que a sociedade venha trabalhar junto. Aqui na prefeitura do Rio de Janeiro, nós abríamos. A COPPE [Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós Graduação e Pesquisa de Engenharia], a FGV [Fundação Getúlio Vargas], o MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts] participaram de projetos com a gente. O MIT, por exemplo, enviou dois pesquisadores que ficaram por três, quatro meses na equipe, desenvolvendo os modelos de análise de dados e há alguns papers bem interessantes sobre isso, todos com dados anônimos. Se for por esse caminho, o uso de dados anônimos, como se tem visto em alguns casos relacionados à COVID, é mais que produtivo, é necessário para uma administração eficiente, democrática e transparente. Agora, uma falha nesse meio do caminho pode gerar o efeito contrário, de ser prejudicial. Alguns exemplos: hoje se usam dados de localização por celular para fazer avaliações de isolamento da COVID. Eu estou agora coordenando um projeto com o Porto Digital e a prefeitura do Recife, exatamente para fazer modelos de risco para a COVID, chama D.A.D.O. Se você usa o dado de localização de celular de forma anônima, garantindo a privacidade, mas ao mesmo tempo não pondera os desvios que isso tem, se você considera que aquilo é toda a população e com isso, usando esses dados, está atendendo a toda a sociedade, você muito provavelmente está desviando a sua atenção pública para aqueles que são digitalmente incluídos, e deixando de fora aquela população mais excluída, talvez idosos ou pessoas de mais baixa renda. É preciso, então, fazer todo um trabalho de ponderação e aí sim usar dados oficiais para fazer correções de modelo e isso, de novo, tem que ser transparente e com a sociedade criticando, para que a gente consiga ao final, ainda nessa fase de transição, ter modelos que sejam minimamente representativos, transparentes e que melhorem a prestação da administração pública, sem os vieses que os dados ainda têm e que vão ter por um bom tempo.

O PENSA – Sala de Ideias, sob sua coordenação, foi o primeiro escritório de big data para políticas públicas no Brasil, representando uma associação bem-sucedida entre poder público, empresas privadas e experts. Gostaria que você falasse um pouco sobre o surgimento e as motivações do PENSA.

O primeiro ponto importante foi o porquê ele foi criado. Ele foi criado porque a Prefeitura [do Rio de Janeiro] precisava ter uma gestão mais transversal. Hoje em dia, a maior parte das prefeituras, governos estaduais e federais são muito verticalizados, mas boa parte das ações, especialmente das ações urbanas, não são feitas de forma segmentada. Se é preciso fazer uma intervenção numa comunidade, tem questões socioeconômicas, de saúde, de segurança pública, enfim, questões de diversas naturezas distintas que precisam estar integradas. Então, o prefeito à época tomou a iniciativa de criar três grupos que foram centrais nisso, nessa transversalidade da prefeitura. Primeiro, a central 1746, uma central telefônica para a qual todas as demandas da sociedade tinham que ser direcionadas, inclusive por aplicativo, para deixar de ter aqueles grupos isolados em que cada um controla sua demanda. Esse foi um primeiro ponto. O segundo foi o centro de operações, que tinha por objetivo centralizar as operações. Então, a central 1746 centralizava as demandas e o centro de operações centralizava as operações que a prefeitura precisava fazer. Um exemplo real de operação que envolvia várias secretarias: um dia, um caminhão entrou em um prédio aqui no Rio de Janeiro, perdeu o freio e foi parar dentro do prédio e, no meio do caminho, atropelou uma pessoa. Então, tinha a questão da empresa de energia elétrica, porque havia um poste também que caiu em cima do caminhão, e precisava desligar a energia. Tinha o fechamento do trânsito para aquela área. Tinha o pessoal da defesa civil, porque o prédio estava ameaçando cair. Tinha o pessoal do SAMU para fazer o atendimento aos feridos que estavam ali naquela região. Enfim, você vê que um único fato tinha uma demanda bastante horizontalizada dentro da prefeitura. O mesmo para enchente e para outros grandes problemas que uma cidade tem. E o terceiro ponto, o terceiro núcleo que foi criado, foi o PENSA, que era exatamente para dar conta de todas essas demandas da sociedade, que vinham originalmente via 1746, de toda força de trabalho da prefeitura que estava concentrada no centro de operações, e dar inteligência a isso, como pegar todos esses inputs e conseguir fazer sair dali algo útil, prático para a população. Logo de início, nós percebemos alguns gargalos. Por exemplo, os dados muitas vezes não eram bons, não eram completos, tinha desvios muito grandes, e logo vimos que se tivesse parcerias com o setor privado nós conseguiríamos ter um ganho muito rápido no que estava desenvolvendo, então foi o que fizemos. Começamos uma parceria, por exemplo, com o Waze, em que fomos a primeira cidade do mundo a ter acesso aos dados deles. Logo de início, começamos a desenhar operações, por exemplo, tapar os buracos mais reclamados da cidade, que é um dado que a gente não tinha, resolver problemas de trânsito, sinal que estava fora do tempo ou cruzamentos que estavam mal planejados, onde fazer obras públicas. Tem demandas de obras públicas pela cidade toda, mas quais eram as que estavam afetando mais o trânsito e impactando mais o cidadão? Qual era o retorno que isso traria para o cidadão em termos de tempo? Nós precisávamos de dados que fossem gerados fora da prefeitura. Se ficasse só com os dados oficiais, estaria pegando só aquela margem dos que estão incluídos dentro da prefeitura, e a gente sabe que são poucos os que ligam, que pegam o telefone ou que fazem uma reclamação, isso é muito enviesado. Então, o fato de ter esses dados da sociedade foi muito importante para conseguirmos fazer planejamentos que tentassem ser o mais democráticos possível, e acho que conseguimos fazer. Em todos esses exemplos, nós tentamos cruzar a demanda da sociedade, que precisa ser percebida de alguma forma, através, nesse caso, do uso de dados anônimos – não tinha nenhum dado pessoal nisso – com a capacidade do poder público de agir, e é preciso ter a centralização de dados num centro de operações, e ponderação disso através dos canais oficiais, como por exemplo 1746, dados do IBGE, dos censos. Quando junta isso tudo, nós conseguimos desenhar projetos que tendem a resolver esse problema que falamos lá no começo, de representatividade, transparência e respeito à privacidade. Você não consegue fazer isso agindo só em um desses pilares, tem que agir nisso tudo, pelo menos nesses três: setor privado (e nesse ente estou colocando tanto quem fornece dados como empresa, como a academia, a sociedade civil organizada), o poder público e a sociedade mesmo, como um todo.

Ainda sobre o PENSA, como é possível replicar essa experiência em outras cidades? Quais são os principais desafios a serem enfrentados?

Vou relatar quais foram os erros no PENSA, porque acho que isso é uma informação importante. Bom, um primeiro erro, que eu diria, foi a falta de ancoragem externa. O que eu digo com isso: nós fazíamos projetos em parcerias com o Waze, Tim, Oi, IMC, Dell, Google ou com a sociedade civil, com cicloativistas, com o pessoal do Projeto Rio Sustentável, que tentava reduzir o consumo de água e energia, mas eram sempre projetos pontuais. O que aconteceu, com uma mudança de gestão, foi muito fácil desmanchar isso tudo. Então, no Rio de Janeiro, a partir do momento em que assumiu um prefeito com uma linha diferente de atuação, tudo isso foi desfeito e foi perdido. Como é que nós estamos fazendo agora no Recife, que é um projeto que eu estou tocando lá para o combate à COVID, que está tentando resolver isso. Lá, o projeto é uma parceria entre o Porto Digital, que já é uma organização da sociedade muito consolidada, que já existe há mais de 20 anos e que tem impactos muito grandes. Tem muitas empresas baseadas no Porto Digital, empresas startups, empresas de tecnologia e empresas inovadoras e que, ao mesmo tempo, têm uma representatividade econômica muito grande para a cidade. Então, a prefeitura hoje, do Recife, não vive sem um Porto Digital, porque boa parte das receitas de serviço vêm de lá. Então como é que estamos fazendo lá? O projeto é uma parceria entre a prefeitura e o Porto Digital, que é [uma associação] sem fins lucrativos. O Porto Digital faz a gestão de pessoal e de tecnologia do projeto e a prefeitura faz a gestão do que precisa e do que ela tem de demanda e da gestão estratégica de políticas públicas. Ou seja, ela vai demandar o tipo de análise que precisa, o tipo de impacto que precisa para a população, e o Porto Digital articula com as empresas da região como desenvolver soluções para a prefeitura. Ali, estamos tentando resolver esse gargalo de ficar ultra dependente da administração pública e, ao mesmo tempo, de ter mais liberdade na transparência dos dados, porque uma vez que esses dados não são mais exclusivos da prefeitura, a sociedade pode se apropriar e analisar esses dados. Abrindo isso, tenta-se resolver aqueles problemas que eu narrei, de estar muito encapsulado e estar muito sob o controle de um ente público que é interessado na solução, [mas] que tem motivos e mais motivos para eventualmente não ser transparente. Então, quando se coloca isso fora da prefeitura, talvez a continuidade e o nível de transparência nesse projeto sejam maiores, é o que estamos tentando resolver ali. Agora, isso não quer dizer que a prefeitura não precise estar estruturada, porque boa parte dessas análises de dados, e do que pode ser ou não feito com os dados, e dos cuidados que se tem que ter com esses projetos desenvolvidos fora têm que ser feito dentro da administração pública, porque senão a administração pública corre o risco de ser capturada por essa entidade externa, seja no caso do Porto Digital ou seja no caso de uma empresa tecnológica ou em outro arranjos políticos que podem ser feitos. A prefeitura também não pode ficar a reboque desse agente externo. Então, como é que eu veria um modelo ideal, que ainda não conheço na prática, mas que eu acho que funcionaria muito bem, seria um misto. A prefeitura se estruturando, tendo uma equipe técnica, não precisa ser grande, custosa, como seria num caso de isso ser tudo feito dentro da prefeitura, mas ela precisa ter um escritório de dados que tenha capacidade de capturar e identificar os dados importantes, agregar esses dados, até para fazer algumas análises críticas às análises que vêm de fora. Mas só isso não basta, ela precisa ter um agente externo muito atrelado à sociedade capaz de fazer esse tipo de processamento. O que eu vejo como solução ideal a médio, longo prazo, seriam modelos mistos disso que foi feito no Pensa, no Rio de Janeiro, ter uma equipe boa ali, com seis, dez pessoas muito qualificadas para fazer esse tipo de análise dentro, mas numa parceria muito forte com algum agente externo capaz de aumentar esse número de seis, dez pessoas para cinquenta, cem pessoas, dependendo do tipo de projeto, que é como o que a gente tem agora pra combate ao Coronavírus [em Recife]. Então, me parece que o modelo misto seria assim. E é preciso que essa equipe de dentro da prefeitura tenha o poder necessário para acessar os dados sempre que preciso. Isso foi um desafio que eu tive no PENSA, no começo. Foram dois decretos, um primeiro decreto criou o órgão, o grupo PENSA, um segundo decreto, que veio um mês depois, dava acesso a todos os dados da prefeitura a esse grupo. Porque secretários ou outros políticos que estão ali tendem a não querer abrir muito seus dados, com medo de uma auditoria, com medo de alguém criticar as ações que estão sendo feitas. Esse grupo interno tem que ter acesso a todos os dados internamente e essa capacidade de fazer essas parcerias com os atores externos. Acho que o cenário ideal seria esse modelo.

Como que os dados estão sendo utilizados no combate ao coronavírus nessa experiência que você está atuando agora?

Foi feito um contrato entre a prefeitura e o Porto Digital. O que aconteceu foi o seguinte, no Recife, como tem muitas empresas de tecnologia, começaram a surgir aplicativos, painéis, de tudo quanto é lado. O que a prefeitura viu foi que precisava ter uma equipe capaz de agregar tudo isso que estava sendo gerado de dados, tanto os dados oficiais da prefeitura, do governo do Estado e do governo federal, agregar isso com os dados que estavam sendo gerados pelos atores de fora, pelos aplicativos, colocar tudo isso num mesmo lugar e dali tirar informações estratégicas. A questão da prefeitura era como conseguir juntar, então, por exemplo, dados de localização, de quem está indo pra onde, cada micro célula da cidade, com as informações que se tem sobre o COVID e, com isso, fazer um enfrentamento mais eficiente. A nossa estratégia foi juntar todos esses dados. Então, hoje, nós agregamos os dados de taxa de ocupação de UTI, registros de exame, dados de mobilidade da cidade, tudo em nível bem pequeno, até em nível de células na cidade, em um, dois quarteirões, e saber qual o risco de cada região da cidade. Com isso, ao invés de planejar uma reabertura ou fechamento da cidade de forma mais abrangente, como os outros lugares estão fazendo, no Recife, nós vamos fazer o seguinte: pode abrir este shopping, mas esse não, porque o público desse shopping é mais de risco do que o público deste; ou um pet shop, aqui pode abrir, ali não pode abrir. É esse nível que estamos chegando no Recife. O que eu tenho visto é o Recife conseguir dar o patrocínio político para que um grupo desses funcione. Não adianta nada ter a equipe, o decreto e não ter um prefeito que compre a ideia e faça os projetos com base nesses dados. E aí é importante a sensibilidade política de um prefeito, quando olha um gráfico, uma análise dessas, e tem a percepção de falar o que não interessa. O que acontece é o seguinte: no modelo, uma das variáveis do risco era a ociosidade de leitos de hospital, isso para um modelo matemático funciona muito bem. Ou seja, se tem capacidade de leito, pode ir relaxando. Só que a leitura do prefeito, com sensibilidade política óbvia, foi “se eu continuar aumentando leito meu risco vai ficar sempre baixo? Vai. Então não pode ser por aí”. Porque eu estou deixando as pessoas adoecerem, porque o modelo está dizendo que com isso eu tenho capacidade de atendimento, que o risco é baixo, então eu não posso estar calcado, baseado nessa variável, essa variável tem que sair. O leito é uma outra variável, que vai me dar capacidade de atender, mas é preciso tirar isso do modelo principal. Então, você perceber que um prefeito que tem essa sensibilidade participa, compra e critica as ideias, como ele fez nesse caso, é muito, muito importante para o sucesso de um projeto desses. Do contrário, você pode ter sistemas automatizados que dão uma boa análise, mas que no final das contas vão resultar em mortes na população, como, fazendo uma crítica, o nosso modelo estava fazendo de forma oculta. A gente não percebia isso, os analistas e os programadores não percebiam isso, mas o prefeito, a primeira coisa que ele viu foi essa. Então, essa composição entre a visão política e a visão tecnológica é fundamental para um projeto desse tipo dar certo.

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Entrevistadora: Giovanna Liotti Chagas

Edição: Enrico Roberto

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