Fotógrafos levam o olhar amazônico para a COP26

Imagens de Bruno Kelly,  Marcela Bonfim, Nailana Thiely e José Rodrigues  estão expostas em dois espaços da conferência do clima, em Glasgow, na Escócia. Acima, o curador Eduardo Carvalho na exposição no Brazil Climate Action Hub (Foto: Divulgação)

Manaus (AM) – Fotografias de Bruno Kelly, do Amazonas, e Marcela Bonfim, de Rondônia, ambos colaboradores da agência Amazônia Real, fazem parte da exposição fotográfica “Para quem está por vir”, iniciativa do Brazil Climate Action Hub, da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2021, a COP26

Além deles, a fotógrafa Nailana Thiely, do Pará, também faz parte da exposição que foi desenvolvida exclusivamente para a COP26. A exposição tem curadoria dos brasileiros Eduardo Carvalho, curador de desenvolvimento e projetos, e Vanessa Gabriel-Robinson, presidente do conselho da Latin American Women Resource Center (LAWRS). “Para quem está por vir” iniciou no dia 1 de novembro durante a COP26 e termina na sexta-feira (12). 

Já o fotógrafo José Rodrigues, do município de Lábrea (AM), também terá uma foto exposta no espaço do Brazil Climate Action Hub COP26. Com uma imagem das queimadas, ele ganhou o concurso ‘Amazoniar’, realizado pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). Leia mais no final do texto.

Bruno Kelly conta que ficou honrado ao receber o convite do curador Eduardo Carvalho e feliz com a proposta de levar para a COP26 uma Amazônia plural. “Eu gostei muito da proposta de mostrar a pluralidade da Amazônia. Mostrar não somente a floresta, mas as pessoas que vivem nela sejam elas indígenas, quilombolas ou ribeirinhos”, disse ele. 

O fotógrafo, natural de São José dos Campos (SP) radicado em Manaus desde 2009, atua como freelancer para diversos veículos e entre eles a agência Amazônia Real. Em maio de 2021, Kelly lançou o livro “Arapaima” que apresenta imagens do dia a dia do manejo sustentável comunitário de pirarucu em áreas protegidas do estado do Amazonas.

Uma das imagens feitas por Kelly que está na exposição é da liderança indígena, Adílio Arabonã Kanamari, da Terra Indígena Vale do Javari (AM), presente na reportagem “‘Bolsonaro pensa que é poderoso, como um deus, mas é qualquer um’, diz cacique Kanamari”, publicada pela Amazônia Real. Ele conta que tem um carinho especial por esta fotografia por ter realizado o trabalho ao lado de Elaíze Farias, jornalista e cofundadora da agência, que tem papel fundamental em sua vida no Norte. “Ela me ajudou a construir muita coisa e a entender o que hoje eu sei que é a Amazônia”. 

Além desta imagem do fotógrafo, outras quatro compõem “Para quem está por vir”. Duas delas mostram o manejo do pirarucu no Amazonas e as demais a cheia histórica em Manaus. “Eu me apaixonei por esse conhecimento tradicional, que é o manejo do pirarucu. Passei a acompanhar por conta própria por alguns anos, tive a oportunidade de publicar um livro e agora fiquei mais feliz de ver duas dessas fotos na COP”, disse Bruno Kelly à Amazônia Real.

“Falta a voz dos ribeirinhos na COP”

Para Marcela Bonfim, a presença de indígenas na COP26 tem sido significativa. Apesar disso, ela ressalta que a representação dos ribeirinhos é feita somente através das imagens apresentadas na conferência, mas que as suas vozes deveriam estar presentes também no evento.

“Como é que se discute Amazônia fora daqui? Só quem sente é quem está do lado de dentro. Precisa-se levar algumas sugestões sobre isso, pois se vai num lugar tão longe da Amazônia para se discutir a Amazônia. Por que essa articulação não é feita aqui? É claro que muitos de nós estão lá, mas acho que isso é pano para discussão”, conta a fotógrafa à Amazônia Real.

Nascida em Jaú (SP), desde 2010 a fotógrafa mora em Porto Velho, capital de Rondônia. Formada em Economia, Marcela luta pelos direitos da população preta e com o seu trabalho busca retratar as comunidades negras tradicionais da região amazônica. Em 2021, ela foi uma das cinco vencedoras do prêmio PIPA

Marcela, que até o momento não conhecia a COP, diz que ficou surpresa e agradecida ao receber o convite para participar da exposição. Agora ela tem aproveitado o momento para conhecer, entender e refletir sobre o que é a conferência climática. Das quatro imagens de Marcela na exposição, três delas fazem parte do seu projeto “(Re)conhecendo a Amazônia Negra – Povos, Costumes e Influências Negras na Floresta”.

“A quarta imagem, que é dos ribeirinhos na janela, já faz parte da minha exposição online ‘Madeira de dentro, Madeira de fora’. Nela trago essa discussão sobre a diversidade da Amazônia e até prefiro falar Amazônias, pois a unificação de tantas realidades ainda é uma discussão”, afirma Marcela. 

Curadores selecionam protagonistas

Eduardo Carvalho acompanho as impressões das fotografias (Acervo pessoal)

Jornalista de formação e bolsista do programa britânico Chevening Clore Leadership, Eduardo Carvalho foi curador do Museu do Amanhã, localizado na cidade do Rio de Janeiro, por seis anos. Suas exposições tem o foco em temas sociais como mudanças climáticas e preservação do meio ambiente. 

Já Vanessa Gabriel-Robinson é uma das criadoras da Escola Livre da Amazônia, uma organização criada para empoderar jovens e profissionais de cultura da região. Nascida no estado do Amapá e formada em jornalismo pela Universidade Federal do Pará (UFPA), ela fundou o Amazon Film Festival, evento que exibe filmes produzidos na Amazônia em Londres, cidade onde reside atualmente. 

Eduardo, que está em Glasgow na COP26, conta que foi chamado para trabalhar no desenvolvimento do Brazil Climate Action Hub, colaborando na curadoria da programação cultural e da produção jornalística da organização. A partir da sua experiência com exposições, ele sugeriu aos organizadores uma exposição fotográfica que falasse sobre a Amazônia. 

“Nós já tínhamos alguns nomes e fomos pensando em como o trabalho de cada profissional criava um diálogo e uma narrativa consistente. Ao chegar nos nomes dos três, vimos que o mais  importante é que não queríamos os amazônidas como ‘objeto de estudo’, mas como protagonistas reais daquelas fotos”, relembrou Vanessa à agência Amazônia Real. 

Além disso, Eduardo ressalta que por meio dos trabalhos de Bruno, Nailana e Marcela,  “Para quem está por vir” leva para a COP26 um diálogo entre os profissionais, quem está sendo representado e o público presente na conferência.

“Nós trouxemos isso para que todos tivessem vozes, tanto os artistas como as pessoas que estão sendo retratadas. Quem passa pela exposição, para e olha diretamente para as pessoas que estão nas imagens. Para mim isso é um diálogo através da arte”, complementa Carvalho. 

Fotógrafo de Lábrea ganha prêmio

Queimada em Lábrea, sul do Amazonas, esta é a imagem premiada no concurso ‘Amazoniar’ realizado pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) (Foto José Rodrigues)

Com o intuito de incentivar o registro da Amazônia, o concurso ‘Amazoniar’, realizado pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), selecionou 17 fotografias para serem exibidas no espaço do Brazil Climate Action Hub, dentro da conferência do clima. 

Uma das imagens selecionadas é do fotógrafo José Rodrigues, que iniciou a sua carreira como colaborador de um blog em 2012. Atualmente, ele presta serviços como fotógrafo para a Prefeitura de Lábrea, município do Amazonas onde mora, e colabora com a agência Futura Press de São Paulo. 

Rodrigues afirma que viu o anúncio do concurso nas redes sociais e que ficou surpreso com o resultado. O profissional conta que é a primeira vez que uma foto sua compõe uma exposição internacional. “É um prazer imenso, principalmente num evento como a COP26”, disse ele à Amazônia Real. 

Segundo ele, no dia do registro da imagem que mostra um incêndio em Lábrea, ele avistou o fogo e a fumaça há mais de 2km do local. Ao chegar lá, percebeu que os moradores usavam o pouco que tinham para tentar conter o fogo que se aproximava das casas. “Somente depois de horas um carro pipa de um empresário local foi lá ajudar a conter as chamas”, disse ele.

Todas as imagens selecionadas pelo concurso ficarão expostas no Brazil Climate Action Hub até esta sexta-feira (12 de novembro), data em que a conferência do clima termina. Porém, a partir do 17 de novembro elas estarão no Museu do Amanhã ao lado da exposição “Fruturos – Tempos Amazônicos”, que tem duração de seis meses, no Rio de Janeiro.

“Eu gostei muito da proposta de mostrar a pluralidade da Amazônia. Mostrar não somente a floresta, mas as pessoas que vivem nela sejam elas indígenas, quilombolas ou ribeirinhos”, disse Bruno Kelly. 

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Fonte: Amazônia Real
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