Grávida é estuprada em hospital de Itacoatiara

“A única coisa que eu quero é justiça”, disse a jovem de 24 anos à Amazônia Real. O caso está sendo investigado pela Polícia Civil. A imagem acima mostra A equipe técnica do Conselho Regional de Enfermagem do Amazonas em frente ao hospital em Itacoatiara. (Foto: Coren-AM)

Manaus (AM) – Uma jovem grávida de 24 anos denunciou à Polícia Civil do Amazonas que um técnico de enfermagem a estuprou dentro do Hospital Regional José Mendes, em Itacoatiara, região metropolitana de Manaus (AM). Segundo ela, o caso aconteceu no dia 25 de outubro por volta das 5 horas e foi registrado na Ouvidoria da unidade de saúde e na Delegacia Interativa de Polícia (DIP) do município, que abriu uma investigação.

Com fortes dores abdominais, a vítima disse que procurou atendimento no hospital onde foi medicada inicialmente por uma enfermeira. Ao aguardar o efeito dos remédios e o pai que levaria um cobertor, a jovem — que prefere não se identificar com medo de represálias — conta que o técnico aplicou uma substância em seu acesso venoso. 

Ela chegou a questionar o investigado sobre qual era o medicamento aplicado. Em meio a uma sonolência repentina, a vítima afirma que foi então estuprada pelo técnico. Um exame de corpo de delito e conjunção carnal foi realizado no dia seguinte, 26 de outubro.

Conforma apurou a reportagem, o técnico era contratado pela Secretaria de Saúde (Semsa) de Itacoatiara e concursado como vigia pela Secretaria de Saúde do Estado do Amazonas (SES).

A jovem disse à Amazônia Real que logo comunicou a enfermeira que foi violentada, mas que o diretor da unidade hospitalar não acionou a polícia militar e teria pedido calma para que ela e a mãe não “denegrissem” a imagem do hospital regional. “Ele estava preocupado somente com o hospital, não estava preocupado comigo”, cobrou.

Quando procurado pela mãe da jovem e por funcionários do local, o técnico de enfermagem já teria ido embora da unidade. Após o ocorrido, o mesmo foi afastado pela Semsa e pela SES. “A SES-AM está providenciando o comunicado do fato ao Conselho Regional de Enfermagem (Coren) e está acompanhando o inquérito policial instaurado para investigar o caso”, disse em nota.

Procurada pela reportagem, a Prefeitura de Itacoatiara informou que irá acompanhar o caso com atenção e que o Ministério Público (MP-AM) será comunicado. Sobre a fala do diretor, a assessoria afirma que o mesmo se referia à preservação da imagem da jovem e não do hospital.

Ato de repúdio

Mãe da vítima passou mal em frente ao Hospital José Mendes
(Foto Reprodução redes sociais Portal LCJ)

Familiares da jovem e mulheres de movimentos sociais de Itacoatiara se reuniram em frente a unidade de saúde na quinta-feira (28 de outubro) para repudiar o estupro no Hospital Regional José Mendes. 

Em nota assinada por sete organizações, o grupo denuncia o tratamento dado à vítima no local e pede que a sociedade se sensibilize com os crimes de estupro para que apenas o crime seja julgado, e não a vítíma. Ao tentar entregar o documento na administração, as mulheres relataram que os funcionários se negaram a recebê-lo. 

“A situação foi tensa. Nós dissemos que só sairíamos de lá com o protocolo pronto e uma assistente social recebeu o papel”, disse Tânia Chantel, membro do Fórum Municipal de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher e coordenadora do Serviço de Apoio à Mulher, Idoso, Criança é Pessoas com Deficiência (Samic), ligado a Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc). 

Durante o ato, a mãe da vítima precisou entrar na unidade para beber água e teria sido impedida por um dos funcionários do local. O fato ocorreu durante uma live do Portal LCJ Notícias, que estava presente no hospital. A Prefeitura não respondeu aos questionamentos sobre esse incidente. Em entrevista ao veículo, representantes do grupo também pediram agilidade nas investigações e a exoneração do acusado. 

“Nós sabemos que isso acontece muito, não somente aqui em Itacoatiara. Queremos que todas as mulheres que já passaram por esse tipo de situação procure o Fórum Municipal de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher ou a União Brasileira de Mulheres. O importante é denunciar e buscar apoio, pois é dessa forma que vamos ficar livre dessa mazela”, disse Cristiane Oliveira, integrante da União em Itacoatiara, na live.

Próximos passos 

No inquérito instaurado para investigar o caso, a Polícia Civil já solicitou as câmeras de segurança do hospital, documentos, prontuários e listas dos funcionários que atenderam a jovem no local.

Tânia Chantel conta que o Fórum e o Samic acolheram a vítima, que foi encaminhada para acompanhamento psicológico. Além disso, uma articulação com a Defensoria Pública do Amazonas apura quais medidas foram ou não tomadas pela unidade hospitalar. 

“A única coisa que eu quero é justiça. Justiça para mim e para outras mulheres que não tiveram coragem de denunciar esse homem. Eu vou continuar com a minha gravidez e tentar seguir a minha vida. Agora eu só espero que as coisas se resolvam logo!”, disse a jovem à Amazônia Real.  

Feminicídios no Amazonas

Julgamento de Rafael Fernandez Rodrigues, acusado de assassinar Kimberly Karen Mota de Oliveira( Foto: Raphael Alves/TJAM)

Mais de 16 mil casos de violência doméstica foram registrados em Manaus entre os meses de janeiro e setembro desta ano, de acordo com a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM).

Na capital, foram 428 estupros e estupros de vulnerável. No interior do Estado, foram 108, sendo 8 deles em Itacoatiara

De março a dezembro de 2020, a Amazônia Real produziu, numa rede colaborativa de jornalismo independente, a série Um vírus e duas guerras. Foram monitorados os casos de feminicídios e de violência doméstica no período da pandemia do novo coronavírus. Na série, ficou patente a inoperância da Justiça em dar prosseguimento aos julgamentos e o drama de mulheres que tinham de conviver com seus algozes dentro de casa.

Entre 2019 e 2021, foram registrados 34 feminicídios em Manaus. Um deles foi o caso de Kimberly Karen Mota de Oliveira, ex-miss Manicoré, assassinada em maio de 2020 por Rafael Fernandez Rodrigues.

O acusado foi denunciado pelo MP-AM por feminicídio, motivo torpe e recurso que tornou impossível a defesa da vítima. O julgamento do caso terminou na última quinta-feira (27/10), onde todas as denúncias foram acatadas pelos jurados, assim como a tese de semi-imputabilidade do réu, ou seja, quando o mesmo tem perda parcial da compreensão da conduta ilícita. Rafael foi condenado a 14 anos de prisão em regime fechado.

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Fonte: Amazônia Real
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