‘Mocinha’ abre nesta sexta-feira o XV Festival de Teatro da Amazônia

A peça aborda relatos reais de casos de violência doméstica e feminicídio e vai circular, até dia 13, pela periferia de Manaus, por Iranduba e será transmitida pelo Zoom.

Manaus (AM) – Após um hiato de apresentações há mais de um ano, por conta da pandemia causada pela Covid-19, o espetáculo Mocinha, com as atrizes Iris Brasil e Karol Medeiros, retorna aos palcos da capital e do interior amazonense nesta sexta-feira (8), como parte da programação do XV Festival de Teatro da Amazônia. A obra aborda a violência contra a mulher e o feminicídio, levando relatos e depoimentos reais em cena. Fruto criativo de alunos do curso de teatro da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e do Coletivo Experimental de Teatralidades (Ceta), Mocinha estreou em 2019 e já foi montada em festivais como o CéU (Cena Universitária Nacional de Brasília), da Universidade de Brasília (UNB).

A concepção de Mocinha, como conta a diretora Lu Maya, nasceu de uma conversa entre ela e as amigas Iris e Karol, que relataram os constantes assédios nas ruas e nos transportes públicos que sofriam. Acabou virando o mote da peça. “O espetáculo inicialmente foi seguindo nessa perspectiva de falar sobre essas violências que nós mulheres vivíamos no dia-a-dia”, explica a diretora. “A gente queria muito fazer uma obra que fosse de denúncia, mesmo porque às vezes tem mulheres não entendem que elas estão nesse espaço, que estão sofrendo um assédio, um determinado abuso. A obra é justamente para trazer informação para essas mulheres.”

O primeiro trabalho de Lu Maya na direção teatral acabou sendo uma criação coletiva. Mocinha contêm, para além dos depoimentos reais de vítimas de violência, trechos do livro Outros Jeitos de Usar a Boca, da autora indiana e feminista Rupi Kaur. Na obra, Rupi traz relatos de violências contra mulheres a partir da sua própria perspectiva. O livro de poesias é um elemento importante para a construção do espetáculo, dialogando com a montagem, as vivências das atrizes e os depoimentos selecionados. A leitura da obra foi sugestão do orientador e professor Taciano Soares. “Quando li o livro, fiquei muito chocada, porque cabia muito na minha realidade. E as meninas também se identificaram. E a Rupi não é daqui de Manaus, nem do Brasil”, afirma Lu Maya. Na obra, a autora indiana trata de temas como amor, dor, ruptura e cura, que são universais, e faziam sentido se tornar o esqueleto da dramaturgia. 

Quem é a Mocinha?

O nome da peça é baseado em um apelido de uma familiar de uma das atrizes do elenco. Chamada de “Mocinha” desde jovem, ela foi mais uma vítima da violência doméstica. Ao mesmo tempo, a palavra remete a um antiquado, mas ainda em uso, termo que evoca a figura da mulher do lar, feita para casar e ter filhos.

Debruçando-se em pesquisas de depoimentos e relatos reais de casos de violência contra a mulher, a peça foi também influenciada pelos encontros com o público. Em uma das rodas de conversas promovidas no processo de montagem do espetáculo, uma das convidadas relatou que uma mulher conhecida escrevia cartas e esta era a única forma que encontrou para falar sobre suas dores. 

“O conteúdo das cartas é sobre essas mulheres que sofreram violência e conseguiram estar vivas ainda. A obra toda não tem nada fictício, são nossas vivências, de outras mulheres que já sofreram violência, vivências de mulheres que já se foram e é uma obra que está sempre aberta”, diz Lu Maya, antecipando que está nos planos do grupo ampliar histórias mais atuais. “A violência continua, o feminicídio também e a gente quer mostrar isso e que precisa parar.”

Uma das cenas da peça faz alusão à Lei Maria da Penha, promulgada no Brasil em 7 de agosto de 2006. Segundo a diretora, essa cena foi incluída no espetáculo após a visita à Subsecretaria Municipal de Políticas Afirmativas para Mulheres, onde a trupe teve acesso ao “Violentomêtro”. O dispositivo em forma de infográfico orienta as mulheres sobre os níveis de violência e as consequências que tais atitudes podem gerar, até desembocar no feminicídio. 

“Foi a partir disso que a ação da cena Lei Maria da Penha foi construída. É uma cena que começa lá embaixo e chega num ápice. Foi bem difícil deixar de escolher algum caso porque todos foram muito fortes, mas o importante é ter esses relatos. Enfiar o dedo na ferida e falar que está acontecendo a violência. O que vamos fazer? Vamos deixar acontecendo?”, denuncia a artista.

Mulheres e opressão

Iris Brasil e Karol Medeiros (Fotos Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Na montagem, as atrizes Iris Brasil e Karol Medeiros puderam compartilhar suas próprias experiências para a construção das cenas. Iris conta que estava no final da faculdade de teatro e precisava fazer uma montagem cênica para concluir o curso. 

Ela recorreu ao Ceta com a ideia de remontar clássicos do teatro que falassem sobre mulheres e opressão, mas o que encontrou foi ainda uma visão machista, pois atores homens estariam em cena. “Teve um período que o nosso encenador, o Victor, teve que ir embora de Manaus e essa foi a chave para a mudança do processo, que aí se tornou o Mocinha. Voltamos para a sala de ensaio, pois não estávamos felizes com aquele processo antigo. Na época, o nosso orientador que era o Taciano Soares, diretor do Atêlie 23, falou que a gente era o espetáculo, que tínhamos que contar nossas histórias e de outras mulheres sobre a situação de violência que nós passamos”, conta a atriz.

Trabalhando com a proposta do teatro performativo, um tipo de encenação onde não há personagens definidos, as atrizes evocam a partir de seus corpos mulheres que foram silenciadas, mortas, ou que acharam um caminho de falar em meio ao caos que é sofrer algum tipo de violência. Para elas, a peça tem caráter também educativo, com intenção de levar às mulheres meios para que possam sair de situações de vulnerabilidade.

Karol Medeiros conta que a importância do projeto se dá principalmente pela participação coletiva que cada pessoa tem na obra. “Essa ideia de fazer algo em prol das mulheres, que expressasse nossa indignação e de alguma forma despertar desta anestesia que a gente tem socialmente, principalmente com o público feminino. Foi importante pra mim como artista e universitária, porque foi meu primeiro trabalho que realmente tinha mão e as minhas ideias, e que eu ajudei a criar. É uma linguagem que eu não tinha trabalhado antes, e já entendíamos que era algo que a gente queria levar para fora da Universidade”, explica.

Com o retorno de suas atividades dentro da programação no XV Festival de Teatro da Amazônia, Mocinha será encenado na cidade de Iranduba, e nas zonas leste e norte da cidade de Manaus, espaços que os envolvidos na peça almejavam alcançar. “Lá, em 2019, a obra tinha o intuito de alcançar mulheres periféricas, que estão passando por esse tipo de violência. E agora com o festival a gente vai conseguir chegar nesses espaços”, diz a diretora Lu Maya.

Mocinha. Com o Coletivo Experimental de Teatralidades. No XV Festival de Teatro da Amazônia (programação completa aqui): 

8/10, às 10 horas, na Praça do Três Poderes, em Iranduba

10/10, às 14 horas, no C.C. Pe. Vignola, em Manaus

12/10, às 14 horas, no estacionamento do Shopping Phellipe Daou, em Manaus

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Fonte: Amazônia Real
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