O mito de origem de uma breve história sobre a fotografia no Estado de Rondônia

A imagem, indelével vestígio da ausência é, em sua profunda nudez, prova maior da existência de um passado ao encontro do presente. Nesse sentido, impulsionado por Roland Barthes, refletir acerca da História da Fotografia em Rondônia me causa tanto entusiasmo como afirmar: a fotografia rondoniense tem muita história para contar.

Talvez, poderíamos dizer que os primeiros registros feitos em terras barrentas, que sustentam nossos pés, pertencem ao fotógrafo norte-americano Dana Merrill, durante a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Curvo-me e vou na contramão, em apego à imaterialidade da existência e a subjetiva ampliação do ato fotográfico, de modo assumido, me inclino em considerar os olhos dos Povos Originários que por aqui já estavam quando chegamos como os primeiros capturadores das imagens dos rios, da fauna, da flora, do pôr do sol e das abundantes belezas naturais que lutam para continuar a existir.

Fomos constituídos por inúmeras migrações em períodos distintos: Barbadianos, Nordestinos, Quilombolas, Sulistas, Japoneses, Norte-Americanos, Haitianos, Holandeses, Portugueses e Libaneses são alguns dos povos que contribuíram – e ainda contribuem -, de modo direto-indireto, com a construção de uma narrativa Nortista, Amazônica e Beradeira do que hoje somos; mesmo quando os olhares, costumes e manifestações desses migrantes tenham sinais notórios-expressos duma perspectiva colonizadora, desconsiderando o saber, o pensamento, o costume e o modo de vida dos Povos Originários, reais construtores das características e do sentimento do que é ser um Rondoniense.

Essas inúmeras migrações ajudaram – de certo modo – a fomentar e alicerçar tanto o imaginário como nosso comportamento, narrativas que são sustentadas pelos incontáveis arquivos histórico-fotográficos que temos. Na primeira metade do Século XX era muito comum uma pessoa ser designada a fazer os registros das viagens e de seus membros. Nesse sentido, podemos considerar Dana Merrill o migrante pioneiro. Desembarcou às margens do rio Madeira em 1909 para documentar a construção da E.F.M.M. e por aqui ficou até meados de 1912. Outros migrantes merecem destaque. Na década de 70, o paulista Marcos Santilli documentou as transformações sociais, crimes ambientais e conflitos entre madeireiros-garimpeiros com os Povos Indígenas em Rondônia. O carioca Ronaldo Nina, contribuiu por muito anos com exímios registros de natureza, eventos culturais e cotidiano do povo de Rondônia. Gabriel Uchida, nascido em Valinhos [SP], que há pouco tempo viveu entre os Indígenas do Estado por cerca de três anos, nos presenteou com um riquíssimo material, híbrido e sagaz no olhar, nos permitindo visualizar novas perspectivas, costumes, comportamentos e posicionamentos dos protetores da floresta. Ricardo Chaves, gaúcho de Porto Alegre, esteve em Rondônia em 1985 e fotografou a histórica marcha para o oeste no interior.

Há aqueles[as] que para cá vieram e aqui ficaram. É o caso da Marcela Bonfim, natural de Jaú [SP] e hoje rondoniense de coração. A fotógrafa se atém aos registros da população preta no Estado, apresentando-nos com seu trabalho antro-poético os costumes, as influências e as riquezas de um povo que por muitas vezes é colocado à margem da população pelo fator cor da pele. Ou Rosinaldo Machado, Paraense da região de Santarém, importantíssimo para a História da Fotografia Rondoniense, fotógrafo oficial do primeiro Governador do Estado [Jorge Teixeira], vive em Rondônia e tem muita história para contar sobre a nossa população através de suas imagens e memórias. Alexandre Almeida, nasceu em Manaus [AM] em 1983 e, no mesmo ano, mudou-se com sua família para Rondônia, sendo registrado aqui, hoje contribui de maneira expressiva com fotografia de esportes, sobretudo o futebol. Ésio Mendes, Carioca, fotógrafo de acontecimentos políticos e fatos históricos, com sua fotografia precisa, factual e jornalística, em profunda atuação até os dias atuais, outro Rondoniense nato. Saulo de Souza, natural de Rio Branco [AC], após um ano de vida se muda para Porto Velho, com sua fotografia autoral, de rua, encharcada de luz e sombra, nos permitindo mergulhar no mais intrínseco cotidiano Portovelhês [como diz Nair Gurgel] que possamos sentir.

Pralém dos migrantes que para cá vieram e ficaram ou de passagens estiveram, somos constituídos também por outros[as] tantos[as] ótimos[as] fotógrafos[as] que aqui nasceram e aqui produzem. De Norte a Sul do Estado, de Guajará-Mirim à Vilhena, somos presenteados pelos seus olhares, cada um[a] em sua área, imersos em suas poéticas. Numa vasta e deleitável lista, não poderia deixar de mencionar alguns nomes como: Luiz Brito, com os registros da Festa do Divino e de sua incansável denúncia sobre as queimadas em Rondônia há mais de três décadas através de fotografias que rompem o tempo, transpassando a era do analógico para o digital. José Filho [o General], fotojornalista com uma trajetória que beira meio Século e detentor do maior acervo de imagens do interior de Rondônia. Cristiane Araújo, jovem fotógrafa rondoniense, em 2006 com apenas 16 anos saiu do interior para estudar fotografia em Goiânia, regressando e hoje atuando a quase 20 anos na cidade de Cabixi com fotografia de família. Douglas Mosh, fotógrafo de música, em especial bandas de rock independente do cenário Rondoniense. Ubiratan Suruí, com sua fotografia indígena, seu trabalho se inclina para a valorização, exaltação, preservação e afirmação dos Povos Indígenas da região Centro-Sul do Estado, especialmente os Paiter [gente de verdade] Suruí localizados no município de Cacoal. Niki Castro, fotógrafo fronteiriço, com suas grandes imagens da vida selvagem na região do Vale do Mamoré. E tantos outros nomes não menos importantes como Pereirinha, Armando Veiga, Raissa Dourado, Pedro Marques, Eliane Viana, Mario Venere, Natalí Araújo, Walteir Costa e Manoel Nascimento.

Fotógrafos e fotógrafas mencionados neste artigo em ordem aleatória
(Imagens: reproduções)

Ou bem como aqueles[as] que aqui nasceram e noutras terras escrevem suas histórias, tendo ainda alguma relação com Rondônia, mesmo que eventualmente, indireta ou em saudosos sentimentos, a esses[as], com trabalhos extremamente potentes, cabe a menção: Malu Teodoro, nasceu e viveu em Porto Velho até os 17 anos, trabalha com fotografia autoral, transitando em diálogo com outras linguagens, como vídeo-arte. Malu morou em vários estados brasileiros e em países como México e Portugal, atualmente vive em Uberlândia [MG]. Avener Prado, portovelhense criado no bairro Jardim das Mangueiras, constrói sua carreira longe do Estado, documentou importantes acontecimentos mundiais como a crise migratória no Mar Mediterrâneo na Itália, os muros erguidos na fronteira entre EUA-México, e a crise epidêmica causada pelo vírus Ebola em Serra Leoa como repórter fotográfico da Folha de S. Paulo entre 2012/19. Atualmente se dedica em cobrir o Brasil para jornais internacionais como Le Monde e The Guardian, vive em São Paulo [SP].

Existe também uma fotógrafa – com uma história inerente – que poderia estar em qualquer um dos parágrafos acima, todavia, influenciado pela enorme dificuldade que tive, me conduzirei rumo ao término desse breve exercício sobre a História da Fotografia em Rondônia trazendo um pouco da sua narrativa; partindo do pressuposto que conheço alguns capítulos de seu percurso e, entendendo que nesse caminho há um profundo reflexo do que é ser de Porto Velho, me coloquei à ouvi-la afim de imergir um pouco mais na história da sua vida, o que foi uma grata surpresa; num dado momento, entre os diversos áudios que trocamos, ela disse-me:

“Eu não nasci em Porto Velho, mas meu mito de origem nasceu em Porto Velho”

Em suas palavras, relatou-me que foi concebida em Porto Velho e no sétimo mês de gravidez sua mãe [gaúcha] pegou estrada rumo à São Paulo e Rio Grande do Sul para ‘mostrar’ a barriga aos seus familiares [viviam na capital gaúcha] e os familiares do seu pai [paraibano] que viviam na capital Paulista. E assim foi, por destino, nasceu em Porto Alegre, 20 dias depois já rumava de volta à Porto Velho, de Porto para Porto, no colo de seus pais, dois migrantes que viviam em Rondônia na década de 90. Seus primeiros anos de vida foram na capital Rondoniense, aos 3 anos, após a separação dos seus pais, foi morar em Brasília com sua mãe, e por lá viveu muitos anos de sua infância e adolescência. Durante todo esse período, retornou a Porto Velho apenas uma vez, para conhecer sua irmã [Isadora] mais nova, fruto do segundo casamento de seu pai, depois disso, foram longos anos distante fisicamente das terras Beradeiras, mas jamais em espírito.

Após a passagem em vida da mãe de sua irmã, e pouco tempo depois a passagem também de seu pai, sentiu uma profunda necessidade de reconectar-se com suas origens, no qual transcrevo na íntegra parte de um dos áudios recebidos em nossa conversa:

“A gente começou a construir essa irmandade, resgatar milhares de histórias, e temos feito isso assim né; mas enfim, ela é minha única parente de sangue que tá em Porto Velho, eu volto pra visitar ela sempre lá, mas Porto Velho é a cidade das minhas memórias de infância né, então tem muitos amigos, do meu pai e da minha mãe que tão lá, a Ana Aranda, que é uma jornalista e, que também é Gaúcha, mas que mora lá a muito tempo, tem filhos nascidos lá também, ela foi quem, foi dela que eu herdei o meu nome, meu nome Ana é por causa da Ana Aranda”

Desde então, sempre que pode, está em Porto Velho. Em meados de 2014/15, documentou parte do processo do multipremiado espetáculo “O Topo do Mundo”, projeto do Dramaturgo Marcelo Felice com os apenados do Presídio Urso Branco. Sobre sua relação com a imagem, a terra e o resgate de suas origens, atenho-me novamente a transcreve-la na integra:

“Eu, quando vou a Porto Velho sempre fotografo muito né, a família e tal, e faço, é, imagens que tenham esse cunho mais intimista, mais sentimental e que tão por aí, e sempre to também colecionando as imagens que me interessam muito, por que falam muito sobre mim, que são as imagens de álbuns de família, tanto da minha mãe, umas coisas que a Ana Aranda tem e tal, que é tudo um imaginário aí que povoa a minha cabeça e as minhas questões sobre mim mesma”

Seu nome, Ana Mendes, mestre em Ciências Sociais. É fotógrafa-documentarista de mídias como The Intercept Brasil, Amazônia Real e Agência Pública. Sua principal pesquisa acadêmica se pauta no histórico racismo vivido pelos Povos Indígenas Akroá-Gamella [Maranhão], o ensaio fotográfico que compõe sua defesa de mestrado foi premiado no 43° Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais. Em 2019 venceu o Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger [um dos mais importantes da Fotografia Brasileira] com o ensaio Pseudo Indígenas, trabalho feito com intervenções em tinta, nanquim e carvão sobre fotografia. É assistente do fotógrafo J. R Ripper [fotógrafo carioca, conhecido mundialmente por sua metodologia de trabalho com fotografias compartilhadas] a cerca de 10 anos. Nesse momento trabalha em um projeto financiado pelo Pulitzer Center sobre os Akroá-Gamella.

Atualmente Ana não possui residência fixa por influência das inúmeras viagens que tem feito a trabalho, sobretudo na Amazônia Brasileira. Pois bem, alimentado por tantas riquezas encontradas e caligrafadas acima, me coloco à refletir sobre a nossa fotografia, este objeto visual tão precioso, copiosa fonte de conservação, registro, memória e resgate da história de uma sociedade ou de um tempo pretérito; uma fotografia nos convida – sutilmente – a habitar o passado, se para Bourdieu a fatia mais considerável de uma imagem está no imaginário, revela-se então a moradia daquela grata – e sempre diferente – surpresa que sentimos quando reabitamos as fotografias das nossas vidas, o poder que ela nos concede de imaginar.

Este texto foi originalmente publicado no site do Museu Imaterial da Imagem e do Som de Rondônia e está sendo republicado na Amazônia Real por ocasião do Dia Mundial da Fotografia, comemorado em 19 de agosto.

A imagem que abre este artigo é de autoria de Ubiratan Suruí, intitulada de Garah ka alamãme – Desmatamento.

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Fonte: Amazônia Real
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