O periódico Educação em Revista avalia somente preprints no modelo “publicar, depois revisar”

Por Abel Packer e Alex Mendonça

O periódico Educação em Revista (EDUR), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), tem exigido, desde fevereiro de 2021, que os manuscritos a serem submetidos sejam depositados previamente no servidor SciELO Preprints seguindo o modelo de publicação “publicar, depois revisar”1 (“publish, then review”) assim denominado pelos editores do periódico eLife. O SciELO Preprints realiza uma revisão da estrutura do texto de acordo com as normas do SciELO e avalia a relevância do texto por meio de moderação, em que o critério principal é aceitar manuscritos passíveis de avaliação por pares.

Esta renovação da política editorial da EDUR tem como ganho primário a eficácia no desk review, que passa a receber manuscritos adequadamente estruturados e passíveis de envio para pareceristas. Além disso, a adoção pioneira de uma das práticas-chave de Ciência Aberta promove uma renovação na comunicação científica do Brasil, como o empoderamento dos autores, que passam a ter o controle e a responsabilidade na disponibilização das suas pesquisas antes da validação por um periódico, e com a possibilidade de aperfeiçoamento dos manuscritos com contribuições de outros pesquisadores. A adoção dessas práticas permite a aceleração da disponibilidade de novos conhecimentos, o que pode ser verificado por meio dos dados de desempenho dos manuscritos em termos de acessos, que servem como antecedentes para o processo de avaliação por pares.

Por ocasião da Semana SciELO 20 Anos, em setembro de 2018, o Programa SciELO adotou formalmente o alinhamento com a Ciência Aberta entendida na conceituação da Unesco como um constructo sobre o Acesso Aberto ao conhecimento científico (textos, conjunto de dados, códigos de programas), infraestruturas de Ciência Aberta, diálogo com a sociedade e com outros tipos de conhecimento estabelecidos ou gerados fora do método científico.

Os objetivos de realizar e comunicar pesquisa na modalidade de Ciência Aberta são bem definidos e disseminados nos últimos anos:

(a) fortalecer a colaboração e compartilhamento como essência da pesquisa científica e, consequentemente, aumentar a efetividade e produtividade do empreendimento científico;

(b) maximizar a transparência em todos os processos; e,

(c) democratizar o conhecimento científico e os mecanismos de participação de atores sociais no empreendimento científico, para além da academia.

Os Critérios SciELO de Indexação foram atualizados em maio de 2020 e orientam que todos os periódicos SciELO deverão atualizar suas políticas editoriais para que estejam alinhadas às práticas de ciência aberta até 2023.

Como instrumento de apoio, o SciELO desenvolveu e mantém um Formulário de Conformidade com a Ciência Aberta que deverá ser preenchido pelo autor antes da inserção do mesmo em um periódico. Por meio desse formulário é possível ter acesso aos seguintes dados:

1) postagem prévia do manuscrito em um servidor de preprints;

2) disponibilidade de dados adjacentes à pesquisa; e

3) abertura do processo de avaliação por pares.

O blog SciELO Perspectiva entrevistou os editores-chefes do periódico Educação em Revista sobre o processo e perspectiva da renovação da política editorial em favor do alinhamento da comunicação de pesquisas com Ciência Aberta.

1. [SciELO] A adoção do modus operandi de Ciência Aberta requer a participação proativa em todas as instâncias e de todos os atores envolvidos na pesquisa – agências de fomento, instituições de pesquisa, programas de pós-graduação, grupos de pesquisa, periódicos, índices bibliográficos. Na sua opinião, quais os benefícios e desafios que enfrentam os periódicos como um todo e, em particular, os de Educação, para renovar suas políticas e gestão editorial em linha com as práticas de Ciência Aberta e, em especial, aceitar preprints?

[MÔNICA JINZENJI] Eu – Mônica Jinzenji –, Eucidio Arruda e Suzana Gomes atuamos como editoras e editor de Educação em Revista e, em nossas discussões e estudos, temos visto que a prática científica de ciência aberta tem como principal benefício a transparência na produção das pesquisas e no processo de avaliação dos resultados dessas pesquisas. A ampliação do debate em torno dos novos conhecimentos antes que eles sejam consolidados no artigo publicado é um exemplo disso, outros benefícios são, por exemplo, a disponibilização de conhecimentos e de dados acumulados para que a comunidade científica possa aprimorar o que já foi anteriormente produzido sem ter que repetir esforços, o que impacta na economia de tempo e de recursos. Em sua essência, os princípios de ciência aberta materializam a perspectiva de que todos e todas estão em processo de aprendizagem, ao abrir o resultado da pesquisa para o debate, por exemplo.

Por meio da publicação no formato preprint nós estamos aceitando contribuições de leitores e leitoras para uma produção que passa a ser pensada como aberta, como provisória. Como desafios nós temos, talvez, como principal a mudança de cultura da produção e divulgação de conhecimento. Então, ao invés do conhecimento inédito ser guardado até o momento da sua revelação para a comunidade, o conhecimento passa a ser visto como uma contribuição disponível para leitura e consulta prévia.

Um outro desafio é o anonimato. Visto que, até então, o anonimato é entendido como aquilo que garante a imparcialidade na avaliação. Com os princípios de ciência aberta, a abertura da avaliação passa a ser valorizada pela transparência que esse processo possibilita. Por fim, um outro ponto importante é a construção de leitores e leitoras críticos, que saibam diferenciar aquilo que está disponibilizado em preprint, para consulta e para debate, e o artigo publicado em um periódico qualificado.

2. [SciELO] Falando especificamente da EDUR, cuja política editorial de passar a exigir a disponibilização prévia no servidor SciELO Preprints está em vigor desde fevereiro de 2021, já é possível identificar benefícios provenientes desta mudança? Quais são as expectativas a longo prazo?

[MÔNICA JINZENJI] Em relação às mudanças no fluxo editorial, numa fase inicial de adaptação às normas, nós percebemos uma ligeira diminuição do fluxo e submissões e estamos entendendo que se trata de uma fase de assimilação dos procedimentos mas que também pode estar relacionado com uma nova postura dos autores, de um maior cuidado em relação à preparação e à produção do texto, uma vez que já ficará disponível on-line para leitura e consulta [assim] que disponibilizado no repositório de preprint.

A moderação realizada pelo SciELO também está certamente contribuindo para esse novo fluxo. Temos recebido textos bem elaborados, estruturados, e quase todos estão sendo encaminhados para avaliação externa. A nossa expectativa é de recebermos manuscritos com boas chances de publicação que requeiram menos ajustes [entre a] proposta inicial até a versão a ser publicada.

3. [SciELO] Pode compartilhar as motivações, as dificuldades e as resistências no processo de análise e discussão que levou à decisão de exigir que os manuscritos sejam previamente depositados no SciELO Preprints?

[EUCIDIO ARRUDA] O nosso entendimento é de que ciência aberta é aquilo que almejamos como pesquisadores há muito tempo. A perspectiva de trabalho colaborativo da transparência, do compartilhamento de dados, envolve uma expectativa de melhoria contínua da nossa produção científica. Este foi o nosso maior elemento de motivação. A adoção do preprint é positiva a médio e longo prazo, pois vemos que, além de maior transparência nos processos de submissão, avaliação e publicação, nos permitirá tirar tempos consideráveis de editoração dos periódicos.

Dentre as maiores dificuldades que enfrentamos ou previmos enfrentar, talvez a disponibilização de dados sensíveis seja o que mais gera debates entre os nossos pares. Isso porque pesquisas em educação lidam essencialmente com seres humanos, em muitos casos, com crianças. Por isso é importante e necessário que a comissão nacional de ética em pesquisas se una aos periódicos para que possamos construir caminhos que atendam à ciência aberta sem ferir o anonimato dos participantes.

De imediato, nós percebemos que a garantia do anonimato promoverá diferentes maneiras de construir e organizar dados e documentos. Até então, cada pesquisador poderia definir como levantaria e identificaria seus dados em suas pastas privadas. É claro que na publicação, isso seria reconfigurado, mas o dado bruto é organizado de acordo com cada pesquisador. Isso se tornará inviável num contexto de abertura destas informações, destes documentos. Além disso, nós consideramos que mídias diversas, como vídeo, áudio, páginas web, formulários web, são também sensíveis a essa questão, sobretudo por permitirem a identificação, seja por imagens, sons, pelas publicações, pelos nicknames… Então nós temos um grande desafio, que é construir conjuntamente com os comitês de ética, adaptações, alterações, nas formas como produzimos e como organizamos os dados oriundos da interação humana.

Dentre as resistências encontradas, nós consideramos que a cultura da avaliação duplo-cega ainda é predominante com seus benefícios e seus limites. Nos faltam dados para dizer de forma estruturada quais seriam as resistências na área, mas nós observamos que a perspectiva de avaliação aberta ainda causa certo temor, tanto no aspecto de quem é avaliado, que possui um receio de parcialidade no processo avaliativo, quanto de quem avalia, que receia que sua identificação possa gerar pressões sobre o resultado ou mudança no comportamento profissional que é avaliado.

4. [SciELO] Quais foram as principais mudanças no fluxo de trabalho do periódico após a implementação desta nova política editorial?

[EUCIDIO ARRUDA] A principal mudança foi na reformulação das normas na submissão de manuscritos, então agora é preciso depositar previamente no repositório de preprints SciELO o trabalho a ser avaliado. Nós solicitamos, ainda, a entrega de uma declaração de disponibilização de dados e demais recursos envolvidos no desenvolvimento da pesquisa. Adotamos, num primeiro momento, a avaliação simples-cega, na qual os avaliadores não são identificados antes do resultado final, então, em relação ao fluxo, nós percebemos uma leve simplificação na medida em que os trabalhos já nos chegam com uma qualidade diferente, digamos, com a qualidade melhor de como chegavam antes, exatamente por causa destas duas etapas de avaliação.

Nós acreditamos que, para os autores, o maior impacto ocorreu pela submissão prévia ao preprint. Isso porque essa não é uma submissão “automática”, ela passa por uma avaliação de critérios – não “critérios” em termos de avaliação de conteúdo, mas critérios técnicos antes da disponibilização do preprint. E, no nosso trabalho inicial, nós precisamos conferir toda a documentação e o cumprimento das normas, prestamos esclarecimentos aos avaliadores – tem sido muito comum nós enviarmos mensagens explicando a eles como é esse processo, sobre o preprint e a possibilidade de identificação dos autores. Até o momento, nenhum artigo submetido dentro dessas normas foi publicado, porque nós temos um fluxo gigantesco de recebimento de trabalhos que é anterior a este novo formato, então nós ainda não ainda não realizamos a vinculação entre DOIs e outros procedimentos necessários.

5. [SciELO] Entre pesquisadores, há resistências em diferentes níveis à adoção do preprint como início do fluxo de comunicação de pesquisas. Em nossa experiência de promoção de Ciência Aberta, em particular com o uso do SciELO Preprints, há uma percepção que a aceitação é mais comum em algumas áreas temáticas. É caso de Ciências da Saúde, em parte devido à COVID-19. Qual é a sua percepção em particular sobre a área de Educação e quais são as estratégias que a Educação em Revista vem promovendo para diminuir as resistências?

[SUZANA GOMES] A resistência à adoção do preprint tem suas bases na cultura acadêmica estruturada historicamente. O preprint é um formato relativamente novo, ainda pouco conhecido, [e] apesar de ser considerado fundamental para renovação da ciência ainda enfrenta resistência de parte da comunidade científica pelo fato de sua adoção implicar mudança de paradigmas. Avalio que o reconhecimento das vantagens do preprint demanda tempo, a fim de que muitos pesquisadores possam constatar que os preprints aceleram o compartilhamento dos resultados de pesquisa, facilitam o avanço da área e melhoram a cultura de comunicação na comunidade acadêmica.

Podemos afirmar que as áreas exatas e as ciências da saúde convivem e operam com preprints há décadas, existe um acúmulo e, portanto, maior abertura para adoção dessa modalidade de comunicação científica. No contexto da pandemia de covid-19, por exemplo, os preprints estão sendo alternativas relevantes de avaliação, de informações, sobre diversas iniciativas que buscam tratamento e solução de doenças. Os pesquisadores da Saúde estão realizando estudos e, nesse contexto complexo, ter acesso às pesquisas disponibilizadas rapidamente por meio de preprints pode ser muito positivo para a sociedade: É a ciência atuando em defesa da vida.

Na Educação, de modo geral, existe uma resistência histórica e cultural que vem sendo superada gradativamente graças à percepção das vantagens da ciência aberta e dos preprints como componentes integrais da comunicação científica. A pandemia também tem estimulado na Educação um olhar sobre a universidade, sobre as políticas públicas, sobre o processo ensino-aprendizagem, sobre os sujeitos da aprendizagem e sobre a formação docente, para citar alguns temas relevantes. No campo da Educação também enfrentamos dilemas, e um dos desafios seria superar a morosidade na socialização dos resultados de pesquisas.

A prática da ciência aberta que envolve a utilização de preprints poderá agilizar a divulgação das pesquisas no campo da Educação e, consequentemente, poderá contribuir para minimizar, superar, inúmeros desafios educacionais. Para diminuir, minimizar, a resistência, nós, editores da Educação em Revista, estamos participando dos fóruns de editores, estamos divulgando subsídios sobre ciência aberta e atuamos também esclarecendo autores que nos procuram para consultar sobre os novos procedimentos.

6. [SciELO] Finalmente, na sua opinião, quais os fatores que podem vir a contribuir para acelerar a adoção de Ciência Aberta pelos periódicos de qualidade? Em particular, em que medida a liderança dos periódicos pode trazer uma contribuição diferenciada?

[SUZANA GOMES] Os editores de periódicos de qualidade têm um papel central nesse movimento, que visa acelerar a adoção de ciência aberta. Podem mostrar, por diferentes formas de comunicação, que os preprints colaboram para aceleração responsável dos resultados de pesquisa e estão alinhados com a nova política científica e editorial. Nesse sentido, os editores dos periódicos de qualidade, podem contribuir explorando elementos que fazem parte dessa política, entre eles, o acesso aberto, a revisão por pares, e abertura de dados. Nossa experiência na Educação em Revista, no campo da Educação, pode motivar os demais periódicos da área. Estamos em processo, aprendendo muito e, além disso, estamos abertos para participar dos fóruns de discussão e divulgação.

Uma forma de colaborar é tornar transparente os procedimentos implementados para adoção dos princípios de ciência aberta, especialmente os preprints. A nossa expectativa é que, aos poucos, a comunidade científica ateste os benefícios da divulgação ágil do conhecimento e do debate prévio à publicação. Como consequência, os avaliadores poderão fundamentar seus pareceres a partir de um debate mais amplo e fértil, o que resultará, sem dúvida, em maior qualificação do trabalho editorial. É importante lembrar que a adoção dos princípios de ciência aberta envolve mudança de cultura na editoração, requer tempo, pois envolve, entre outros, a abertura dos periódicos de qualidade para mudar referências que são bastante consolidadas na própria academia.

Agradecimento

[SUZANA GOMES] Nós, editores da Educação em Revista, agradecemos à direção do SciELO pela entrevista e pela oportunidade do trabalho em parceria. Muito obrigada!

Nota

1. EISEN, M.B., et al. Implementing a “publish, then review” model of publishing. eLife [online]. 2020, vol. 9, e64910 [viewed 00 July 2021]. https://doi.org/10.7554/elife.64910. Available from: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33258772/

Links externos

Critérios SciELO Brasil: https://www.scielo.br/about/criterios-scielo-brasil

Formulário de Conformidade com a Ciência Aberta: https://wp.scielo.org/wp-content/uploads/SciELO-Preprints-Formul%C3%A1rio-de-Conformidade-Ciencia-Aberta.docx

SciELO – Educação em Revista: https://www.scielo.br/edur/

SciELO Preprints: https://preprints.scielo.org/

Semana SciELO 20 Anos: https://www.scielo20.org/

 

Sobre Eucídio Pimenta Arruda

Doutor em Educação. Professor Associado da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais. Vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Educação: Conhecimento e Inclusão Social. Editor Geral da revista Educação em Revista.

 

Sobre Mônica Yumi Jinzenji

Doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. Professora Associada da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da mesma Universidade. Editora Geral de Educação em Revista e pesquisadora da área de História da Educação. Coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Cultura Escrita.

 

Sobre Suzana dos Santos Gomes

É Professora Associada da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (FaE/UFMG). Pós Doutora em Educação pela Universidade de Lisboa (U.L) e Universidade de São Paulo (USP). Doutora em Educação. É pesquisadora do Grupo de Avaliação e Medidas Educacionais (GAME) e Líder do Grupo de Pesquisa-ação sobre Universidade – Universitátis/FaE/UFMG. Professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Educação: Conhecimento e Inclusão Social.  Editora Geral da Educação em Revista (FaE/UFMG).

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Fonte: SciELO
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