Pescadores pedem ajuda financeira após doença da urina preta comprometer vendas

 

Entidades que representam pescadores dos estados do Pará e do Amazonas reivindicaram nesta quarta-feira (29), na Câmara dos Deputados, apoio do poder público para socorrer trabalhadores atingidos pela queda na venda de peixes nos dois estados. Eles participaram de audiência pública promovida pela Comissão de Integração Nacional, Desenvolvimento Regional e da Amazônia.

Segundo os debatedores, a redução drástica na demanda por pescados em municípios do Pará e do Amazonas ocorre em meio a suspeitas de casos da Síndrome de Haff – popularmente conhecida como “doença da urina preta” –, causada por uma toxina que pode ser encontrada em espécies de peixes e crustáceos. A toxina gera danos no sistema muscular e em órgãos como os rins, o que provoca o escurecimento da urina.

Coordenador do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais do Oeste do Pará e do Baixo Amazonas, Manoel dos Santos disse que a preocupação com os riscos do consumo de peixes afugentou consumidores e esvaziou mercados da região. “A população não quer consumir nenhuma espécie. Os consumidores estão rejeitando pescados de forma geral”, disse. Renan Queiroz, do Conselho Pastoral dos Pescadores, também destacou os impactos da doença no trabalho e na renda dos pescadores.

Alertas
Apesar de ainda não haver correlação cientificamente comprovada entre o consumo de peixes e os sintomas da doença, autoridades estaduais e municipais preferiram emitir alertas à população após pacientes com dores musculares e nos rins e urina escura relatarem ter comido peixe nas 24 horas anteriores. Os alertas sugerem a suspensão temporária do consumo de algumas espécies de peixes, como o pirarucu, o tambaqui, o pacu e o pirapitinga.

Cleia Viana/Câmara dos Deputados
Airton Faleiro: talvez seja necessário um auxílio emergencial para a pesca

O deputado Airton Faleiro (PT-PA), que propôs o debate juntamente com os deputados José Ricardo (PT-AM) e Vivi Reis (Psol-PA), disse que a audiência revelou a dimensão socioeconômica do problema, já que envolve não apenas a renda dos pescadores mas a saúde dos consumidores em geral. Faleiro afirmou esperar que a ciência consiga apresentar logo suas conclusões para nortear e orientar as ações do Legislativo e do Executivo. “Talvez tenhamos que fazer um auxilio emergencial, associado ao seguro-defeso, um seguro complementar para salvar essa socioeconomia”, declarou.

Para José Ricardo, é fundamental identificar o que tem levado às intoxicações. “Temos de ter uma resposta o mais rápido possível, porque isso afeta a saúde e o comércio”, ressaltou. “O resultado das investigações cientificas é muito importante para orientar e dar tranquilidade à população e para manter o pescado como fonte principal de proteína para boa parte da população”, acrescentou.

Ciência
Os pesquisadores Priscila de Aquino, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Amazônia; Tatyana Ramos, da Fundação de Vigilância em Saúde Rosemary Conta Pinto; e Marcelo Lima, do Instituto Evandro Chagas, destacaram o desafio da ciência de buscar explicações para o surto de rabdomiólise – síndrome associada à doença de Haff – na Região Norte do País.

Cleia Viana/Câmara dos Deputados
Audiência Pública - Síndrome de Haff (doença da urina preta) e queda de consumo do pescado. Coordenador-Geral de Administração e informação dos segurados INSS, Roberto Dal Col Filho
Roberto Dal Col Filho: crise se assemelha à causada pelas manchas de óleo no NE

“Como identificamos uma possível origem no lago do Mapiri, em Santarém, no Pará, estamos mandando uma equipe para investigar tudo: metais, resíduos orgânicos e fitoplâncton. Não podemos afirmar atualmente se é um fenômeno natural ou se foi provocado por [água trazida em] barcos”, declarou Marcelo Lima.

Tatyana Ramos, por sua vez, informou que já foram recolhidas porções de água e de peixes, além de fluidos e sangue de pacientes para análise. “Foram coletadas amostras clinicas de pacientes hospitalizados e amostras de pescado da espécie tambaqui”, apontou.

Monitoramento sanitário
Mesmo relatando que existem espécies de peixes não atingidas pelo surto da doença, o representante do Curso de Engenharia de Pesca da Universidade Federal do Oeste do Pará, David Gibbs, concordou com a necessidade de oferecer apoio aos pescadores. Ele propôs ainda programas contínuos de monitoramento sanitário de pescados em feiras livres e a adoção de boas práticas de manejo desses produtos.

Roberto Dal Col Filho, do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), comparou a situação atual com a crise decorrente do aparecimento de manchas de óleo nas praias do Nordeste, e sugeriu que o socorro aos pescadores seja feito da mesma forma, via medida provisória, “para ser mais rápido e para aumentar a quantidade de pescadores beneficiados”.

Representando o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o secretário de Aquicultura e Pesca substituto, Jairo Gund, defendeu a aprovação do Projeto de Lei 4414/16, que cria um fundo de amparo para a aquicultura, e destacou a importância da atuação efetiva dos órgão de vigilância sanitária para informar a população sobre quais alimentos não devem ser consumidos.

Tratamento
O Ministério da Saúde aponta que a hidratação é fundamental nas horas seguintes ao aparecimento dos sintomas, uma vez que assim é possível diminuir a concentração da toxina no sangue, o que favorece sua eliminação por meio da urina. Em casos mais graves, pode ser preciso fazer hemodiálise.

29/09/2021 – 20:30  

 

Entidades que representam pescadores dos estados do Pará e do Amazonas reivindicaram nesta quarta-feira (29), na Câmara dos Deputados, apoio do poder público para socorrer trabalhadores atingidos pela queda na venda de peixes nos dois estados. Eles participaram de audiência pública promovida pela Comissão de Integração Nacional, Desenvolvimento Regional e da Amazônia.

Segundo os debatedores, a redução drástica na demanda por pescados em municípios do Pará e do Amazonas ocorre em meio a suspeitas de casos da Síndrome de Haff – popularmente conhecida como “doença da urina preta” –, causada por uma toxina que pode ser encontrada em espécies de peixes e crustáceos. A toxina gera danos no sistema muscular e em órgãos como os rins, o que provoca o escurecimento da urina.

Coordenador do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais do Oeste do Pará e do Baixo Amazonas, Manoel dos Santos disse que a preocupação com os riscos do consumo de peixes afugentou consumidores e esvaziou mercados da região. “A população não quer consumir nenhuma espécie. Os consumidores estão rejeitando pescados de forma geral”, disse. Renan Queiroz, do Conselho Pastoral dos Pescadores, também destacou os impactos da doença no trabalho e na renda dos pescadores.

Alertas
Apesar de ainda não haver correlação cientificamente comprovada entre o consumo de peixes e os sintomas da doença, autoridades estaduais e municipais preferiram emitir alertas à população após pacientes com dores musculares e nos rins e urina escura relatarem ter comido peixe nas 24 horas anteriores. Os alertas sugerem a suspensão temporária do consumo de algumas espécies de peixes, como o pirarucu, o tambaqui, o pacu e o pirapitinga.

O deputado Airton Faleiro (PT-PA), que propôs o debate juntamente com os deputados José Ricardo (PT-AM) e Vivi Reis (Psol-PA), disse que a audiência revelou a dimensão socioeconômica do problema, já que envolve não apenas a renda dos pescadores mas a saúde dos consumidores em geral. Faleiro afirmou esperar que a ciência consiga apresentar logo suas conclusões para nortear e orientar as ações do Legislativo e do Executivo. “Talvez tenhamos que fazer um auxilio emergencial, associado ao seguro-defeso, um seguro complementar para salvar essa socioeconomia”, declarou.

Para José Ricardo, é fundamental identificar o que tem levado às intoxicações. “Temos de ter uma resposta o mais rápido possível, porque isso afeta a saúde e o comércio”, ressaltou. “O resultado das investigações cientificas é muito importante para orientar e dar tranquilidade à população e para manter o pescado como fonte principal de proteína para boa parte da população”, acrescentou.

Ciência
Os pesquisadores Priscila de Aquino, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Amazônia; Tatyana Ramos, da Fundação de Vigilância em Saúde Rosemary Conta Pinto; e Marcelo Lima, do Instituto Evandro Chagas, destacaram o desafio da ciência de buscar explicações para o surto de rabdomiólise – síndrome associada à doença de Haff – na Região Norte do País.

“Como identificamos uma possível origem no lago do Mapiri, em Santarém, no Pará, estamos mandando uma equipe para investigar tudo: metais, resíduos orgânicos e fitoplâncton. Não podemos afirmar atualmente se é um fenômeno natural ou se foi provocado por [água trazida em] barcos”, declarou Marcelo Lima.

Tatyana Ramos, por sua vez, informou que já foram recolhidas porções de água e de peixes, além de fluidos e sangue de pacientes para análise. “Foram coletadas amostras clinicas de pacientes hospitalizados e amostras de pescado da espécie tambaqui”, apontou.

Monitoramento sanitário
Mesmo relatando que existem espécies de peixes não atingidas pelo surto da doença, o representante do Curso de Engenharia de Pesca da Universidade Federal do Oeste do Pará, David Gibbs, concordou com a necessidade de oferecer apoio aos pescadores. Ele propôs ainda programas contínuos de monitoramento sanitário de pescados em feiras livres e a adoção de boas práticas de manejo desses produtos.

Roberto Dal Col Filho, do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS), comparou a situação atual com a crise decorrente do aparecimento de manchas de óleo nas praias do Nordeste, e sugeriu que o socorro aos pescadores seja feito da mesma forma, via medida provisória, “para ser mais rápido e para aumentar a quantidade de pescadores beneficiados”.

Representando o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o secretário de Aquicultura e Pesca substituto, Jairo Gund, defendeu a aprovação do Projeto de Lei 4414/16, que cria um fundo de amparo para a aquicultura, e destacou a importância da atuação efetiva dos órgão de vigilância sanitária para informar a população sobre quais alimentos não devem ser consumidos.

Tratamento
O Ministério da Saúde aponta que a hidratação é fundamental nas horas seguintes ao aparecimento dos sintomas, uma vez que assim é possível diminuir a concentração da toxina no sangue, o que favorece sua eliminação por meio da urina. Em casos mais graves, pode ser preciso fazer hemodiálise.

Reportagem – Murilo Souza
Edição – Marcelo Oliveira

56ª Legislatura – 3ª Sessão Legislativa Ordinária

Fonte: Agência Câmara Notícias