Projeto Comprova + Comunidades verificou 194 postagens nas redes sociais

28 veículos, entre eles, a agência Amazônia Real, participaram da iniciativa que confirmou como enganosa as postagens sobre o “tratamento precoce”

Projeto também verificou como verdadeira uma postagem sobre os filhos de políticos e de empresários (foto) vacinados sem prioridade, os fura-filas de Manaus

A terceira fase do projeto Comprova + Comunidades, que teve como missão o combate à desinformação que atinge a pandemia da Covid-19, realizou entre os meses de setembro a fevereiro 194 verificações. Um dos temas mais recorrentes verificados foi sobre o “tratamento precoce”, o coquetel de remédios não eficazes para combater a doença e distribuído pelo governo de Jair Bolsonaro, além de boatos envolvendo a vacina contra o coronavírus.

Uma das verificações checadas foi uma postagem no Twitter que cobrava do Ministério da Saúde a adoção do uso precoce de hidroxicloroquina no combate da covid-19 baseado em uma publicação de um site. O projeto confirmou que a postagem era enganosa.

No Facebook, o projeto confirmou também como enganosa uma postagem sobre a suposta morte de um diretor do hospital municipal em João Pessoa, na Paraíba, por Covid-19, mesmo depois de tomar a vacina. Assim como também era enganosa uma outra publicação no Facebook, de um homem que dizia que seu pai, um idoso, teria morrido por conta da CoronaVac

O projeto Comprova + Comunidade confirmou ser verdadeira a publicação feita pelo perfil “Bora Conversar Política” sobre filhos de políticos e de empresários em Manaus terem sido vacinados um dia após suas nomeações a cargos comissionados na prefeitura da capital do Amazonas. O caso ficou conhecido como fura-filas. “O post exibe imagens dos jovens sendo vacinados e mostra, como noticiado por diversas mídias e checado pelo Projeto Comprova, Gabrielle Kirk Lins e Isabelle Kirk Lins, filhas de Niltinho Lins Jr., herdeiro do hospital e da universidade Nilton Lins. O terceiro citado é David Dallas, filho do ex-deputado estadual e empresário Wanderley Dallas”, diz a verificação. 

A agência Amazônia Real participou do projeto Comprova + Comunidade tendo como representante a jornalista Alicia Lobato. A iniciativa de checagem de dados envolve a colaboração de 28 veículos de comunicação. O objetivo do projeto é identificar e verificar conteúdos enganosos compartilhados em sites, aplicativos de mensagens e redes sociais. Sendo uma uma iniciativa da First Draft, liderada pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

As outras mídias envolvidas no projeto são: Alma Preta; Agência Mural; Marco Zero Conteúdo; Favela em Pauta; Coletivo Bereia; Coletivo Niara e Rádio Noroeste. Ao todo foram 16 jornalistas, além de Alicia Lobato, Aline Goulart Soares, Andressa Almeida, Andreza Ferraz, Dandara Franco, Edda Ribeiro, Fábio Silva de Oliveira, Gabi Coelho, Gisele Alexandre, Inácio França, Ira Romão, Jonathan Karter, Juliana Dias, Luciana Petersen, Rafael Costa, Roberta Camargo.

O projeto ofereceu um treinamento inicial aos jornalistas participantes que aprenderam como atuar em uma checagem, com o uso de programas e softwares que podem ser utilizados nas verificações. Além disso, as agências receberam um apoio financeiro para a aquisição de equipamentos e uma ajuda financeira para remunerar os profissionais integrados ao projeto. 

Tendo apoio da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, as verificações do projeto Comprova + Comunidades contaram com a coordenação dos editores Sérgio Lüdtke, José Antônio Lima, Helio Miguel Filho e David Michelsohn. 

Em entrevista à Amazônia Real, Sérgio Lüdtke explicou como a desinformação na pandemia foi um grande desafio. “A desinformação passou a ser um desafio gigantesco quando a pandemia foi politizada e as pessoas passaram a dar ouvidos a líderes que não seguiram as orientações da ciência. A desinformação tem impactos sérios na vida das pessoas e não somente na formação da opinião. As tomadas de decisões baseadas em desinformação podem levar a sérias consequências e, num período como esse da pandemia, também à perda de vidas. É difícil mensurar, até porque é uma informação mais íntima, mas é possível supor que a desinformação esteja deixando um triste e significativo saldo de vítimas na pandemia”, disse. 

Jornalista Alicia Lobato (Foto Amazônia Real)

A jornalista Alicia Lobato, representante da Amazônia Real no projeto Comprova + Comunidades, entrou na agência como estagiária, em 2019, e atualmente é finalista do curso de jornalismo pelo Centro Universitário Fametro. Ela escreve sobre meio ambiente, política, educação e defesa dos direitos dos jovens e mulheres.

“Para mim, o grande desafio em atuar com checagens durante a pandemia foi essa enxurrada de desinformação que surgiu, pondo em risco a vida das pessoas, visto que a maioria duvidam da segurança da vacina, o uso das máscaras e até da própria pandemia. Com isso, checagens como a do projeto foram realmente importantes durante esse período, servindo como uma fonte de conhecimento que vai além de saber se aquela notícia que está circulando no whatsapp é falsa, pois traz opiniões de especialistas e explicam a verdade por trás daquele boato”, disse Alicia.

Após seis meses participando do projeto Comprova, além do treinamento inicial, Alicia fala sobre o aprendizado; “Tivemos, na prática, com certeza, uma especialização, não apenas na checagem de informações, mas também em uma apuração mais aprofundada. O tipo de verificação realizada pelo projeto são técnicas que todos os profissionais de comunicação precisam saber, principalmente, agora no momento em que estamos vivendo em que tudo se desconfia”.

O período do projeto foi marcado por ataques contra jornalistas participantes da iniciativa. Assim como em uma apuração jornalística, no Comprova, todos os lados são ouvidos e em alguns casos os envolvidos nas checagens não apenas repudiavam a investigação dos profissionais como também iam as redes sociais expor os membros da equipe.

Sérgio Lüdke relata como foram os ataques aos jornalistas. “Sempre sofremos questionamentos e alguns ataques nas nossas publicações nas redes sociais, na maior parte das vezes vindas de pessoas que se veem contrariadas com a revelação de algo enganoso ou que não acessaram a verificação na íntegra para ler os nossos argumentos e evidências. Nesse ano, tivemos dois fatos mais graves, a revelação de dados pessoais de duas jornalistas do projeto e ataques a elas nas redes sociais. O Comprova deu assistência jurídica através da Abraji e, a partir dessa experiência, realizou treinamento e definiu algumas práticas para abordagens mais seguras a fontes nas redes sociais”, afirma o editor. 

Sobre o trabalho em colaboração com 28 organizações de mídia, Alicia Lobato disse que foi uma grande experiência. “As equipes são formadas por jornalistas de diversas regiões do país e conseguem realizar um grande trabalho sempre respeitando a opinião do outro e respeitando suas vivências, mostrando que é possível a união entre veículos de comunicação no Brasil”, diz a jornalista. 

Veja as verificações com a participação da Amazônia Real: 

Revisão de estudo publicado no site do MS não garante eficácia da hidroxicloroquina no tratamento preventivo contra covid-19

É enganoso que imunogenicidade da CoronaVac ofereça risco; Anvisa pediu dados complementares e não questionou segurança

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Fonte: Amazônia Real
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