Sob ataque de facção, prefeito de Manaus pede Exército nas ruas. Escolas e indústrias estão suspensas

“Tem que convocar a GLO, está mais do que na hora do Exército entrar nas ruas, não se pode deixar que os marginais tomem conta”, disse David Almeida (Avante). Imagem acima de micro-ônibus incendiando na avenida dos Franceses, zona oeste de Manaus (Foto de Edmar Barros/Futura Press/Estadão Conteúdo)

Por Kátia Brasil, Leanderson Lima e Cícero Pedrosa Neto, da Amazônia Real

Os ataques de traficantes da facção Comando Vermelho, segundo a  Secretaria de Segurança Pública do Amazonas, ampliaram para um total de cinco cidades do Amazonas atingidas: Manaus, Manacapuru, Iranduba, Careiro Castanho e Parintins. As retaliações pela morte de um traficante provocaram pronunciamento do governador Wilson Lima (PSC) e do prefeito Davi Almeida (Avante) no início da noite deste domingo (6). Durante a tarde, um monumento de uma praça e duas escolas públicas foram incendias na capital amazonense. 

Indústrias da Zona Franca de Manaus suspenderam o terceiro turno de trabalho, segundo o Sindicato dos Metalúrgicos. Um foguetório, com fogos de artifício, foi ouvido por moradores de ao menos 15 bairros, entre eles, Japiim, na zona centro-sul, onde criminosos incendiaram uma agência da Caixa Econômica Federal. A Prefeitura de Manaus informou que as aulas das escolas da rede municipal estão suspensas nesta segunda-feira (7).   

O prefeito de Manaus, David Almeida foi pessoalmente, na noite deste domingo, ao monumento “Bolas das Letras”, no bairro Dom Pedro, na zona oeste da cidade, no qual traficantes atearam fogo na praça. “Foram longe demais, um abuso extremo, que a sociedade não pactua e não aceita. Nem numa guerra atacam uma ambulância. Muito ousados, chega! Você que sabe onde estão esses marginais, denunciem, liguem para a polícia”, disse o prefeito, falando sobre a ambulância do Samu (Serviço Móvel de Atendimento de Urgência) atacada pela manhã.

Leia aqui: Manaus e mais três cidades do Amazonas são atacadas pelo Comando Vermelho

David Almeida, que é da base política do presidente Jair Bolsonaro, assim como Wilson Lima, disse que comunicou os ataques em Manaus ao Comando Militar da Amazônia (CMA), instituição do Exército brasileiro. “O Estado não pode recuar, tem que ter muita firmeza nesse momento. Já conversei com o Comandante Militar da Amazônia (general Estevam Cals Theophilo Gaspar de Oliveira) e falei com o Wilson Lima. Se estão fazendo isso a luz do dia, durante a noite pode ser muito pior, delegacias estão sendo atacadas. Tem que convocar a GLO, está mais do que na hora do Exército entrar nas ruas, não se pode deixar que os marginais tomem conta. Eu quero fazer um apelo à sociedade: ou ela toma uma atitude para acabar com as drogas, ou as drogas vão acabar com  a sociedade. E temos sim (que ter) a presença do Exército nas ruas para colocar esses bandidos no lugar deles”, disse o prefeito. Ele garantiu que a vacinação contra a Covid-19 será mantida nesta segunda-feira (7). Os postos já recebem apoio do Exército. 

A GLO é  o Adestramento Básico de Operações de Garantia da Lei e da Ordem, do qual o prefeito David Almeida falou na coletiva, é o efetivo que realiza uma operação militar em área previamente estabelecida e por tempo limitado, com o objetivo da preservação da Ordem Pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. O desenvolvimento destas atividades é das Forças Armadas. Seu emprego foi polêmico no Rio de Janeiro e classificado como uma intervenção por órgãos de direitos humanos, em 2018.

Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa do Comando Militar da Amazônia disse que não recebeu um comunicado formal do prefeito de Manaus sobre o emprego da operação militar GLO.

14 criminosos presos

Manaus, AM 23/05/2021- Rua Trezezinha na Colônia Antônio Aleixo com pixação do Comando Vermelho (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Manaus, AM 23/05/2021- Rua Trezezinha na Colônia Antônio Aleixo com pixação do Comando Vermelho (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Manaus, AM 23/05/2021 – Feira da Panair com pixação com menção à facção criminosa Comando Vermerlho (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Manaus, AM 23/05/2021 – Feira da Panair com pixação com menção à facção criminosa Comando Vermerlho (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Manaus, AM 23/05/2021 – Feira da Panair com pixação com menção à facção criminosa Comando Vermerlho (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

O CRAS em Careiro Castanho foi incendiados (foto rede sociais)

Viaturas queimadas em Manacapuru (Foto SSP)

Carros queimados em Careiro Castanho (Foto SSP)

Bola das Letras a praça Jornalista Umberto Calderaro queimada também (redes sociais)

Em uma rede social, o governador Wilson Lima quebrou o silêncio sobre os ataques no Amazonas. Ele disse que a reação dos traficantes às operações que têm ocorrido no estado do Amazonas, nas quais, segundo ele, já foram apreendidas cerca 11 toneladas de drogas no período entre janeiro a maio deste anos, e cerca de 832 mil armas de fogo que estariam em posse de criminosos. 

“Já identificamos possíveis mandantes. Quatorze pessoas já foram presas, entre elas um dos líderes desses ataques coordenados nas cidades de Manaus, no Município de Parintins e também no Careiro Castanho”, afirmou Lima. Os nomes dos acusados não foram divulgados.

Durante o pronunciamento, Wilson Lima disse que informou a situação da segurança do estado aos ministros da Segurança Nacional, Anderson Gustavo Torres, e da Casa Civil, general Luiz Eduardo Ramos, e que aguardava reforço de tropas federais, mas não comentou do acionamento da GLO. “A minha determinação é a de que não sosseguem, não parem, até que todos os envolvidos estejam presos e que sejam devidamente punidos pelos atos que estão sendo praticados aqui na cidade de Manaus”, afirmou o governador. 

Pela manhã, a Secretaria de Segurança Pública disse que os ataques aconteceram nas cidades de Manaus, no distrito de Cacau Pirêra, em Iranduba, Careiro Castanho e Parintins, entre a madrugada de sábado (5) e domingo (6). Os responsáveis eram traficantes da facção Comando Vermelho. Eles atearam fogo em 21 veículos e depredação de prédios públicos. Os crimes seriam uma retaliação à morte do traficante e líder do Comando Vermelho, Erick Batista Costa, o “Dadinho”. Ele morreu em uma troca de tiros com militares da Rocam (Rondas Ostensivas Cândido Mariano) da Polícia Militar, na noite de sábado.

No início da tarde de domingo (6), os ataques continuaram. Os traficantes incendiaram agências também dos bancos Bradesco, Banco do Brasil e Santander, em Manaus. Um morador da zona oeste, contou sob sigilo da identidade, sobre o clima de medo e terror que havia na cidade. 

“Daqui da minha casa dá para sentir o cheiro de queimado, fumaça… acabou de acontecer isso o incêndio na agência da Caixa. Tem uns rapazes passando de moto, indo de casa em casa, falando que não é pra sair de casa, que é pra ficar em casa, que não é pra ir pra rua porque está acontecendo uma verdadeira guerra. Tenho criança pequena, é muito desconfortável. Estamos na pandemia e a gente ainda tem que passar por essa situação”, contou o morador do bairro Japiim, na zona sul da capital.

O secretário coronel Bonates disse que foram determinadas algumas ações: “os policiais que estão de folga estão sendo convocados a voltarem para suas unidades, estamos reforçando o policiamento e novas prisões estão sendo feitas nesse momento”, disse.  Ele também apelou à população “que caso tenham visto, identificado placas de veículos dos meliantes que entrem em contato com a polícia através do 181 ou do 190”. Também pediu a não disseminação de fake news (mentiras) para não prejudicar as operações, como, por exemplo, a da suposta interdição da ponte de acesso à Iranduba, que fica na Região Metropolitana de Manaus. 

Com mais de 2 milhões de habitantes, parte da população de Manaus sofreu com as fake news (mentiras).  Muitas fotos e supostos recados dos traficantes do Comando Vermelho circularam nas redes sociais dos moradores da cidade. Um dos posts dizia que “o CV está de luto, e quem for pego na rua será executado”, levando terror à população. O fato é que agora a noite muitos moradores enviaram informações nas redes sociais dizendo que “todos fiquem em casa e suspendam pedidos de delivery essa noite. Shopping fechados e escolas não abrem amanhã!”, diz a mensagem.

Testemunha se escondeu em sala

Viaturas da Polícia foram incendiadas em Manacapuru (Reprodução redes sociais)

Em Manacapuru, distante a 103 quilômetros de Manaus, dois prédios públicos foram atacados por criminosos: o Centro de Referência da Assistência Social, no bairro da União, o Cras-União. De acordo com uma testemunha, o ataque foi por volta da meia noite e meia, e começou com uma onda de tiros disparados contra o prédio. Em seguida, o local teve uma das salas invadida e incendiada. “Me escondi em uma das salas enquanto a ação criminosa era realizada, o que não demorou mais de cinco minutos. O Corpo de Bombeiros foi acionado para conter as chamas que danificaram totalmente o espaço”, disse ele à reportagem.

Ainda em Manacapuru, os criminosos atearam fogo em um micro-ônibus, que ficou parcialmente destruído, no estacionamento do Imtrans, localizado na avenida Manoel Urbano, ao lado do quartel do 9º BPM.

De acordo com a prefeitura, desde os primeiros momentos após os ataques, uma força tarefa envolvendo policiais civis e militares está nas ruas de Manacapuru tentando identificar os autores da ação criminosa, e ainda no intuito de evitar que outros ataques ocorram.

Indústrias suspendem produção

Pólo Indusrtrial de Manaus (Foto Secom)

Em reunião com os sindicatos patronais, o Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas (Sindmetal) suspendeu na noite de domingo (6), o terceiro turno dos trabalhadores do distrito industrial, uma vez que o principal alvo dos ataques em Manaus, são os ônibus. A maioria dos trabalhadores se locomove pelo transporte coletivo ao Polo Industrial de Manaus (PIM).

A reunião contou com o vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Nelson Azevedo dos Santos, com presidente do Centro das Indústrias do Estado do Amazonas (Cieam), Wilson Périco, e com o presidente do Sindicato das Indústrias de Meios Magnéticos e Fotográficos do Estado do Amazonas, Amauri Carlos Blanco.

“Nós fizemos agora à tarde um acordo com os sindicatos patronais para suspender o terceiro turno e amanhã (segunda-feira) começar mais tarde. A rota só vai começar depois das 7h. Não dá para sair de madrugada. Estamos fazendo isso em nome da segurança dos trabalhadores”, disse à Amazônia Real o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas (Sindmetal) Valdemir Santana.

Os shoppings da capital amazonense fecharam suas portas mais cedo, às 19h, por conta dos ataques. A maior parte dos estabelecimentos estava funcionando aos domingos até às 21h. 

Antes do fechamento desta reportagem, a  Prefeitura de Manaus, por meio da Secretaria Municipal de Educação (Semed), informou que, por medidas de segurança, todas as escolas da rede municipal de ensino estarão fechadas nesta segunda-feira (7). “A Semed informa, ainda, que o atendimento presencial nas sedes administrativas da secretaria também estará suspenso nesta segunda-feira. Os servidores executarão suas atividades via teletrabalho (home office)”.

Já o Sindicato dos Trabalhadores de Transporte Rodoviário de Manaus informou que, em decorrência dos ataques de criminosos, as empresas decidiram recolher esta noite todos os coletivos para suas respectivas garagens. Também disse que a frota de ônibus estará suspensa nesta segunda-feira (7).  

O setor do comércio não se pronunciou. A Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) soltou uma nota informando que suspendeu as atividades presenciais, amanhã, para resguardar a integridade dos servidores públicos.

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Fonte: Amazônia Real
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